Mauricio Della Barba
De Londrina
Esperar. Esta é a principal dificuldade de quem precisa de tratamento odontológico em Londrina e não pode pagar pelo serviço de um dentista. Os poucos locais existentes para a realização do serviço gratuito não são suficientes para suprir a necessidade da população. ‘‘O jeito é esperar mesmo’’, diz a dona de casa Maria do Rosário, que há dois anos acompanha o tratamento dentário de sua neta Keila, de 9 anos, no Centro Odontológico Universitário Norte do Paraná (Counp), da Universidade Estadual de Londrina (UEL). ‘‘Chego a esperar três meses para vir aqui’’, afirma a avó.
Os postos de saúde, que deveriam ser o meio mais prático e rápido para atender a população, não estão preparados para a maioria dos serviços odontológicos. ‘‘Fui ao posto, mas eles disseram que não tinham condições de resolver o problema dela’’, confirmou Maria do Rosário. Além disso, os postos não prestam atendimento a adultos.
Sem contar com os postos de saúde, a maioria das pessoas vai em busca do serviço de outras entidades. O Counp, que funciona no centro da cidade, é o principal órgão de atendimento odontológico gratuito da região. A lista dos que aguardam tratamento no Counp é longa. Além da gratuidade, o centro preza pela qualidade dos serviços realizados.
As atendentes não sabem quantificar quantas inscrições são feitas por dia. ‘‘Só no pronto-socorro, enviamos 80 pessoas diariamente para o atendimento’’, informa uma secretária do Counp. A espera pelo tratamento varia conforme o caso. A confecção de próteses é a mais demorada, fazendo as pessoas aguardarem mais de dois anos.
‘‘Não dá para tratar da cidade toda. Temos um limite e seguimos as grades de aulas do curso de odontologia da UEL’’, argumenta Janice Alves Scaloni, encarregada do setor de estatística do centro. Para se ter uma idéia, no último ano, o Centro atendeu mais de 237 mil pessoas, uma média de 20 mil atendimentos por mês. É um número satisfatório, mas longe de absorver a necessidade da população. ‘‘Sem contar que também atendemos muita gente de cidades vizinhas’’, explica.
A Universidade Norte do Paraná (Unopar) é outra alternativa popular de atendimento odontológico na cidade. Como na UEL, os pacientes fazem parte das aulas práticas do curso de odontologia. Apesar de atender diariamente cerca de 300 pessoas, a vaga pelo serviço é muito concorrida.
As pessoas são chamadas apenas no início do ano letivo e no começo do segundo semestre. ‘‘Não fazemos uma lista, pois isto cria uma expectativa muito grande nas pessoas’’, diz Vera Lúcia Martins, que administra a Clínica Odontológica da Unopar. Como nas outras entidades, a Unopar também é outro local para onde são repassados os pacientes não atendidos pelos postos de saúde.
A Associação Odontólogica do Norte do Paraná (AONP) também conta com um serviço gratuito de tratamento dentário. Os atendimentos fazem parte de aulas práticas da Escola de Pós-Graduação em Odontologia, um curso próprio da entidade. Ao todo, 48 dentistas já formados e mais 12 em nível de aperfeiçoamento prestam o serviço em quatro diferentes áreas: periodontia, endodontia, odontopediatria e prótese.
A lista de pessoas interessadas no tratamento gratuito preenche várias folhas de formulário. Os quatro funcionários não sabem quantos telefonemas são feitos por dia pedindo uma vaga, mas sabem que se desdobram para atender a todos. ‘‘Nós cadastramos a maioria, mas não podemos dizer quando serão atendidos. Esperar faz parte...’’, diz um dos secretários.
O diretor do curso, Wilson Trevisan Junior, alega que a estrutura disponível para o atendimento é pequena e que a intenção do atendimento é de fornecer apoio à parte prática das aulas. ‘‘Não se trata de um serviço público. Seguimos uma linha educacional e enquadramos as pessoas com problemas específicos para as aulas’’.
Para se ter uma idéia, em 1999, até o mês de julho, a lista de interessados no serviço chegava a 265 inscritos. Destes, 140 haviam sido atendidos. A demora para ser atendido, em alguns casos, chega a durar quase um ano. ‘‘Acabamos dando assistência à população em um setor onde o governo deveria assistir’’, observa Trevisan Júnior.
Lidia Fabel se cadastrou na associação em abril e ainda aguarda o tratamento de gengiva. ‘‘Fui chamada para que fizessem uma avaliação. Prometeram que me atenderão até dezembro’’, diz Lidia. É a primeira vez que ela procura um atendimento gratuito. ‘‘Antes fazia particular, mas as coisas ficaram difíceis.’’
Já no Centro Social da Igreja Coração de Maria, na Avenida Higienópolis (centro), o cadastramento de pessoal está suspenso. Cerca de 400 pessoas estão na lista de espera para tratamento odontológico. ‘‘Não estamos cadastrando niguém por enquanto. Até o final deste ano, a lista está cheia’’, revela a coordenadora do Centro, Ivana Maria Campagnolli.
Algumas pessoas que preencheram o cadastro no ano passado estão sendo atendidas agora. Ao todo, 34 dentistas voluntários trabalham no local.

mockup