O sertanista Orlando Villas-Bôas, 84 anos, não tem papas na língua quando fala do comportamento dos países europeus no extermínio dos povos indígenas latino-americanos durante o período colonial. Villas-Bôas acredita que os atuais governos de nações como Portugal, França e Espanha ‘‘não estão preparados’’ para formalizar um pedido de desculpas e reconhecer as atrocidades cometidas contra os nativos da ‘‘Terra Nova’’ a partir da chegada de Cristóvão Colombo. Com o Brasil, o pensamento segue a mesma crítica.
‘‘Fiz palestras em Portugal e os portugueses ainda pensam que o índio é aquele bicho. Perguntavam se o índio ainda era aquele vagabundo que eles conheceram’’, disse Orlando, que ficou conhecido internacionalmente, junto com os irmãos Leonardo e Cláudio (já falecidos), pelo comando da ‘‘Marcha para o Oeste’’, que percorreu 2.500 quilômetros pelo interior do País entre 1943 e 1960. As expedições culminaram na formação do Parque Nacional do Xingu, no Estado do Mato Grosso, o único parque indígena ainda em funcionamento no mundo.
Villas-Bôas esteve em Curitiba para participar na noite terça-feira, no Memorial de Curitiba, da abertura da exposição fotográfica ‘‘Guerreiros Sem Espadas - As experiências revistas dos Irmãos Villas-Bôas’’. A mostra revela 50 anos de história dos índios documentados pelas lentes de Orlando e seus dois irmãos que viveram entre o céu e o inferno nas matas brasileiras nos primeiros contatos com algumas nações indígenas. ‘‘Isso tudo o que aconteceu é natural nesse tipo de trabalho. Nos contatos com os índios sempre fomos muito felizes. Não sei se os índios percebiam que a nossa intenção era ajudá-los ou se o nosso anjo da guarda era muito forte’’, relembra Orlando, entre risos.
O sertanista defende que as escolas ofereçam conhecimentos menos superficiais sobre a história dos índios e da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, em 1500. Orlando Villas-Bôas observa que ‘‘agora é que se está tendo uma nova maneira de se apresentar a questão do descobrimento’’. ‘‘O Brasil não foi descoberto, ele foi invadido pelo que existe de pior na Europa’’, afirma. Uma contradição levantada por Villas-Bôas é sobre o descobrimento. Os índios não entendem o que seria isso, já que estavam aqui há pelo 40 mil anos antes de Cabral.
‘‘Eles não têm nem idéia do que serão os 500 anos do Brasil, porque isso aqui era deles há muito tempo’’, lembra o sertanista. O caso do índio Pataxó, Galdino de Jesus, que teve o corpo queimado por adolescentes em Brasília, foi lembrado por Villas-Bôas para reforçar um contraste desfavorável aos índios. ‘‘Nós não assistimos há pouco tempo aquele índio Pataxó que veio à Brasília? Aquela terra dos pataxós foi onde Cabral encostou. E tomaram tudo dos Pataxós e quando eles vieram a Brasília para reivindicar ao governo da República um pedacinho de terra para preservar sua nação acontece uma coisa dessas’’, lamenta.

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