''Será que Auschwitz é aqui ?''
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quarta-feira, 13 de abril de 2005
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
A noção de que todo ser vivo precisa de um mínimo de espaço físico para sobreviver de forma saudável existe desde que o homem começou a observar a natureza; os animais demarcam território e lutam por cada metro quadrado de área. No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial, o nazismo criou um conceito de ''espaço vital'' chamado Lebensraum, usado para certificar a conquista de territórios. A partir daí, a psicologia se encarregou de estudar melhor a influência do espaço físico sobre o comportamento humano.
De acordo com o psiquiatra Marcelo Castro, de Londrina, a questão transcende a metragem e a localização geográfica; o modo como as relações se passam é que conta. ''Conforme a instituição, o espaço pode se tornar insuportável, deseducativo, alienante e enlouquecedor'', garante. A impossibilidade de ter posses e um mínimo de privacidade é o início de um processo de degradação humana: ''Na nossa sociedade, você é aquilo que você tem, as tuas posses têm a tua cara. Numa prisão desse tipo o indivíduo não tem nem a posse da própria pele, que é invadida pela doença, pela sarna da pele do outro. Não tem o que psicologizar nesta situação. Tratar os presos assim é ser tão criminoso quanto os crimes que eles cometeram'', aponta o médico.
Citando clássicos como Michael Foucault, o especialista faz um alerta para as ''mortificações ou reduções do eu'', analisadas em vários estudos. ''Sentir-se vigiado o tempo todo, não ter privacidade para as necessidades fisiólogicas, não ter como se livrar nem da doença contagiosa do companheiro ao lado, tudo isso mutila a pessoa e tem um impacto degradante e mortífero''.
Castro explica que a delimitação de espaço é instintiva nas relações sociais e só deve se romper voluntariamente. ''Quando qualquer pessoa que se aproxima demais de você, ou chega muito perto, incomoda. Isso só é alterado em situações provisórias, como entrar num elevador lotado, ou sentar numa arquibancada cheia para assistir um jogo de futebol. Mesmo assim, existe sempre uma opção, o que não é o caso dos prisioneiros''.
Perplexo com a situação das prisões do País, o médico questiona a concepção do sistema: ''Afinal, os presos não deveriam ser recuperados ? É uma hipocrisia nossa ficar torturando alguém durante meses, anos, com a desculpa de falta de verba...''. E faz um alerta: ''Quando você coloca crianças apertadas dentro do carro e faz uma viagem, repare como elas se tornam inquietas e começam a brigar. Isso acontece até com animais. Esse tipo de promiscuidade reforça os impulsos de agressividade. Como vocês acham que um prisioneiro nessa situação vai sair depois da cadeia? Será que as pessoas não pensam que ele vai voltar para a sociedade, um dia, pior do que era? Será que Auschwitz não é aqui?''


