''Depois que a minha filha nasceu aprendi a ser mais equilibrada, antes fazia só o que me dava na telha.'' ''Minha filha me ensinou a ver o mundo com outros olhos, a apreciar os detalhes da natureza, que passam despercebidos por causa da correria diária.'' ''Meu filho me ensinou a tomar milkshake e não é que eu gostei?'' ''Minha filha é minha personal stylist, é ela quem opina sobre a roupa que devo usar para sair.'' ''Minha filha sabe usar o celular muito melhor do que eu. Ela mexe até nos mais modernos sem a menor dificuldade, enquanto o máximo que eu uso é a agenda.''
Para os pais, é difícil imaginar aprender algo com um filho, já que o contrário sempre foi realidade nas famílias. Mas estimuladas pela reportagem, algumas mães conseguiram se lembrar de algum truque aprendido com o rebento.
''Para os pais, os filhos nunca sabem nada, nós é que temos que ensiná-los'', brinca a professora de natação Karen Aoki Romero, que admite ter aprendido ''a dar mais valor às nuvens do céu e prestar mais atenção aos detalhes do cotidiano'' com a filha Isadora, de 13 anos.
''Ela é muito detalhista e todo dia de manhã, a caminho da escola, ela repara nas árvores, nas flores, no formato das nuvens e comenta comigo como o dia está bonito'', comenta Karen.
''Também passei a reparar na natureza com o coração mais aberto, graças a ela'', completa a professora, que insiste em levar e buscar a filha no colégio todos os dias. ''É o momento do dia que passamos mais tempo juntas e quando eu consigo conversar com ela sobre a escola, os amigos, enfim, saber o que acontece na vida dela.''
''Conhecer bem o filho pode ser o caminho para aprender com ele'', diz a psicanalista Simone Oliani. Para ela, a diversidade proporcionada pela tecnologia, em particular a internet, levanta uma questão importante: ao mesmo tempo em que tem o poder de aproximar as famílias e facilitar a comunicação, também pode resultar no oposto. ''Será que tanta tecnologia não está isolando cada um no seu mundinho?'', questiona a psicanalista.
Segundo ela, ao atingir a adolescência, o filho já não quer mais contato com os pais, que viram objetos de crítica. Só mais tarde, aos 20 e pouco anos, é que a situação começa a se inverter. ''No fundo, o ensinamento mais puro e simples que um filho pode dar a um pai é ensiná-lo a ser pai, a ser mãe. E a gente só desenvolve esta habilidade quando o filho nasce'', argumenta.
Simone lembra que a relação familiar tem sofrido constantes processos de mudança. ''Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, pai e mãe estão mais ausentes de casa e têm pouco tempo para o contato afetivo com os filhos.''
No entanto, as escolas têm formado as crianças para serem catalizadoras de informações. ''Muitos colégios utilizam as crianças para conscientizar os pais. É o caso da escola de trânsito, por exemplo'', cita Simone.
Ela ressalta os projetos escolares que tratam de assuntos como reciclagem, economia de água, combate à dengue, hábito de poupar dinheiro, abandono do tabagismo, entre outros. ''São vetores mirins que ensinam toda a família'', defende a psicanalista.
Para ela, os pais devem sempre se perguntar se a relação que mantêm com os filhos é de qualidade e o que a possibilidade de substituir afeto por bens materiais tem produzido no comportamento das crianças.
Num mundo onde tudo é praticamente descartável, a pergunta que realmente não quer calar é: você conhece o seu filho? Sabe quem é o melhor amigo dele? ''Somos todos aprendizes e professores. Se um pai olhar o filho com humildade pode descobrir o quanto ele está lhe ensinando e se beneficiar com isso.''

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