Sequestro causou comoção em Foz
Quase 26 após o sequestro dos opositores de Stroessner em Foz do Iguaçu, uma pergunta fundamental ainda não foi respondida: se aceitou capturar o grupo, por que o governo brasileiro não o entregou aos paraguaios? Isso seria muito fácil. Os locais em que eles foram sequestrados ficam a menos de cinco quilômetros da Ponte da Amizade, que liga os dois países. Era só cruzar a ponte e entregar os prisioneiros a seus algozes.
Os próprios sequestrados apresentam três fatores para explicar esse aparente recuo dos militares: a reação provocada em Foz do Iguaçu, a pressão internacional gerada pelo caso e o momento político pelo qual o Brasil passava.
Alejandro Stumpfs, Rodolfo Mongelos e Aníbal Abbate Soley eram empresários bem sucedidos em Foz. César Cabral, gerente da importadora de Stumpfs. Eles moravam na cidade, em média, havia 15 anos. Maçom, Soley exercia a presidência do Lions Club local. Mongelos era rotariano.
A detenção do grupo provocou comoção e revolta em Foz do Iguaçu. Maçonaria, Rotary, Lions, Câmara de Comércio e Centro dos Advogados enviaram uma comissão conjunta a Brasília. Esse grupo permaneceu quase 15 dias na capital, onde teve audiências com o então ministro da Justiça, Armando Falcão, e até com o general Ernesto Geisel (1974-79), que chegara à Presidência naquele ano.
Ao movimento local, aliou-se a pressão internacional. Houve manifestações da Anistia Internacional e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O presidente venezuelano Carlos Andrés Perez conhecido democrata enviou a Geisel dois pedidos para a libertação dos quatro prisioneiros. Até o papa Paulo 6º condenou a atitude brasileira.
Notícias do sequestro foram divulgadas por alguns dos principais veículos de comunicação do mundo, como a rádio BBC, de Londres. Para César Cabral, o fato de as vítimas serem expoentes da burguesia contribuiu para o final feliz do caso.
Mas nada disso teria valido se no Brasil não tivéssemos um presidente como Ernesto Geisel, elogia Mogelos. Geisel sintetizava a tradição, a dignidade e a soberania do Exército brasileiro. Ele não iria se submeter a uma ditadura suja como a de Stroessner. Quarto militar a chegar ao poder desde o golpe de 64, em 74 Geisel já ensaiava a abertura política.
Na opinião de Stumpfs, o governo brasileiro pode até nem ter ordenado o sequestro. Mesmo integrando o Exército, o major Curió seria um mercenário, que teria recebido dinheiro de Stroessner para levar o grupo ao Paraguai. Segundo esse raciocínio, ao saber do plano, Geisel teria ordenado a libertação dos quatro e a expulsão de Curió das Forças Armadas.
Mongelos não concorda com a suposição de que o sequestro tenha sido ação de mercenários, mas confirma que a ordem para a libertação dos quatro sequestrados partiu de Geisel. Curió veio até nós e disse que o presidente não iria atender o pedido de Stroessner para que fôssemos entregues. Disse também que Geisel mandara dizer que nossas vidas seriam preservadas, nossos bens respeitados e nossas famílias teriam todas as garantias, conta Mongelos. (V.D.)





