Quando Antonio Marques de Souza, há exatamente 20 anos, ligou feliz da vida para sua madrinha para avisar que o emprego arranjado pelo padrinho tinha mesmo dado certo, não imaginava o que o esperava pela frente. Ao ser informado que seria um coveiro e sem conhecer o tipo de serviço prestado pela Acesf, confundiu o significado das palavras e ficou imaginando que seria um vendedor de couve.
Depois de alguns dias à espera das verduras, recebeu ordens para ir até um dos cemitérios reformar um túmulo. ‘‘Me senti mal’’, confessa hoje o coveiro mais antigo em atividade em Londrina.
Conhecido por ‘‘Vanuso’’, apelido que nasceu da semelhança de seu nome com o de Antonio Marcos, então marido da cantora Vanusa, seo Antonio já trabalhou em todos os cemitérios da cidade, inclusive no do Patrimônio Heimtal. Só no São Pedro, o mais antigo do município, foram 13 anos e meio. ‘‘Já enterrei muita gente conhecida, pioneiros como o Celso Garcia, Pedro Lopes e Agenor Panissa’’, conta seo Antonio, enquanto coça a cabeça e tenta lembrar de mais algum nome.
Livre do mal-estar que o assaltou nas primeiras semanas de trabalho (por mais de um ano, só conseguia fazer exumação na base de muita cachaça), ele hoje fala com naturalidade do seu ganha-pão, sem esconder o orgulho por realizar um trabalho que, no fim das contas, sela o destino de todos os mortais, ricos ou pobres. ‘‘Um coveiro é o representante de toda a família, todos dependem dele naquele momento. E não tem dia, hora, sol ou chuva.’’
Josoé de CarvalhoArtistaAntonio Marques ganhou o apelido de Vanuso por causa da semelhança entre seu nome e o de Antonio Marcos, na época marido da cantora VanusaPrestativo, seo Antonio diz que no seu trabalho tem hora para chegar, mas nunca para sair. ‘‘Já tive que fazer muitos sepultamentos à noite.’’ Medo? Ele garante que nunca teve. Quer dizer... ‘‘É lógico que, no escuro, o coração dá uma balançada, mas a gente tem que ser forte e pensar que não vai acontecer nada.’’ Até porque ele não acredita em histórias de fantasma. ‘‘O medo é mentiroso, é ele que faz a gente ver coisas’’, filosofa.
‘‘Vanuso’’ não descarta, porém, a possibilidade de, em alguns casos, os mortos se rebelarem. Ele acredita que aqueles que fazem muito alarde da própria coragem, estão sujeitos a surpresas. Vingança, talvez.
Como seo Antonio faz questão de demonstrar, o tempo todo, um grande respeito pelos mortos, nunca foi, digamos assim, incomodado. Os momentos de maior tensão no trabalho, segundo ele, são as exumações. ‘‘Nesta hora me concentro, e até prefiro que ninguém converse comigo. Tenho medo de esquecer alguns dos ossos do falecido na terra.’’
Dos primeiros anos de profissão, o coveiro não guardou doces lembranças. Do cemitério João XXIII - o primeiro que trabalhou e para onde voltou, há pouco mais de cinco anos - ele recorda os muitos buracos e as dificuldades do terreno irregular. ‘‘Quebrei o pé várias vezes, no esforço de dar ‘galeio’ na ‘vanga’ (uma espécie de pá quadrada, usada para furar e remover a terra). Era uma tristeza.’’
No Jardim da Saudade, seo Antonio fez a primeira cova, às custas de muita força e sacrifício. É que o local, antes, era usado para plantio agrícola, o que tornou o solo totalmente compactado. ‘‘Agora está um pouco melhor, mas era comum a gente ter que começar a preparar o serviço na véspera, molhando o local para amolecer a terra.’’
Tempos difíceis, que seo Antonio guarda na memória junto com momentos não menos complicados de sua profissão. Um deles foi o sepultamento de duas irmãs, ambas universitárias, ocorrido há cerca de 10 anos, em acidente no trânsito. ‘‘Não esqueço o desespero dos pais.’’ E engana-se quem acha que com a prática e os muitos anos de atividade, é mais fácil administrar a emoção. Até hoje acha complicado enterrar crianças. ‘‘Choca a gente’’, resume o coveiro.
Casado duas vezes, pai de cinco filhos, ele se diz orgulhoso por trabalhar num local ‘‘santo’’, e sente-se protegido pelas almas. Mas reclama da falta de reconhecimento. Segundo ele, com exceção de algumas famílias que agradecem pelo capricho com que costuma exercer suas obrigações, são poucas as pessoas que dão o devido valor ao seu trabalho.
‘‘Muitas vezes escuto no rádio as pessoas lembrando a importância de muitas profissões. Tem até Dia dos Animais, mas eu já cheguei até a pesquisar, mas nunca soube que existe o Dia do Coveiro.’’ Desestímulos como esse, somados ao parco salário e trabalho pesado, têm deixado ‘‘Vanuso’’ meio cansado.
Afinal, daquele dia em que foi chamado às pressas para fazer o seu primeiro sepultamento (por acaso, porque o coveiro estava de folga), calcula que já enterrou mais de um milhão de pessoas. Um número significativo, que ultimamente tem gerado em seo Antonio a inevitável dúvida: ‘‘Quem será que vai me enterrar no dia em que eu morrer?’’


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Nome:Josoé de CarvalhoDribleAntonio Marques de Souza: no começo, as exumações só eram suportadas à base de muita cachaçaSilvana Leão

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