O sistema de som da Igreja Matriz de Ibiporã amplia em alto volume o chiado característico dos velhos e riscados discos de vinil. Na sequência, os primeiros acordes de ‘‘Ave Maria’’, de Franz Schubert, começam a ser ouvidos por todo o centro da cidade e também em parte da periferia. A população, nesta hora, já sabe: mais um anúncio de morte será transmitido pelas diversas caixinhas de som instaladas no alto e nas laterais da igreja.
O dono da voz que responde pelo serviço de alto-falantes da Igreja Matriz já é figura conhecida em Ibiporã. Aos 61 anos, José Pereira Lopes chegou a cidade aos três anos de idade, vindo de Cornélio Procópio, e desenvolve o trabalho com som há mais de quatro décadas.
É sempre a mesma rotina: quando o parente da pessoa falecida pede, ele pluga o microfone nos amplificadores da igreja e diz com voz grave o tradicional ‘‘nota de falecimento’’. Depois, anuncia o nome do falecido, o local do velório e a hora do sepultamento. Por conta do trabalho, é comum o comentário, em tom irônico: em Ibiporã, ninguém quer cair na boca do seo José.
‘‘Não é que a gente gosta de anunciar os mortos na cidade, mas esse é um serviço de utilidade pública e alguém tem que fazer’’, explica. Além do serviço de alto-falante, sele também é servente da igreja e faz de tudo um pouco: desde tirar a grama do lado de fora da casa paroquial até pequenos reparos no sistema elétrico.
Seo José conta que começou a trabalhar com sistemas de som arrumando músicas de quermesse. Quase na mesma época, também passou a anunciar os mortos e as pessoas desaparecidas no salão de festa da igreja de Ibiporã, quando esta ainda era de madeira. Há cerca de 30 anos, o anúncio passou a ser feito pelos alto-falantes externos, instalados no alto da matriz. Independentemente da religião do falecido.
‘‘Na época a gente não tinha outros meios de comunicação na cidade. Então começamos a fazer esse serviço. Deu certo e a gente faz até hoje’’, observa. Neste intervalo, seo José casou com dona Olívia Formigoni, em 1956, teve seis filhos (cinco meninos e uma menina), sete netos (seis meninas e um menino), e hoje mora nos fundos da igreja.
O tempo serviu também para que ele acumulasse histórias, algumas engraçadas, outras nem tanto. Já aconteceu, por exemplo, de cair a energia elétrica durante o anúncio de um morto e a informação ficar pela metade. Ou então o equipamento de som apresentar problemas e deixar seo José na mão. Também é comum o parente pedir para que, ao invés de ‘‘Ave Maria’’, seja tocada outra música durante o anúncio. Pedido, aliás, prontalmente negado: é preciso manter a tradição do serviço.
Mas a história que mais diverte seo José aconteceu já há alguns anos. Na ocasião, o parente chegou à igreja para solicitar o serviço depois de ter tomado algumas cachaças. Meio bêbado, ele trocou tudo na hora de falar o nome do morto, o local do velório e o horário do enterro: ‘‘Em vez de dar o nome de quem morreu, ele deu o nome do dono da casa onde estava acontecendo o velório’’, recorda.
Depois que o anúncio foi transmitido, a confusão tomou conta da cidade. O ‘‘morto-vivo’’ era figura conhecida em Ibiporã e ficou muito bravo ao saber que tinha sido confundido com o falecido. O jeito foi esclarecer tudo pelo sistema de som da Matriz. ‘‘No final acabou dando tudo certo’’, destaca.
Mas o que deixa seo José mais triste neste serviço é ter que anunciar a morte de pessoas conhecidas, principalmente os padres que passaram pela matriz. ‘‘O padre Franco, por exemplo, que morreu há pouco tempo. Trabalhamos juntos aqui’’, lamenta. Outra pessoa ilustre que seo José teve que anunciar no sistema de som da matriz foi o padre José Zanelli, que depois acabou homenageado emprestando o próprio nome ao Cine-Teatro de Ibiporã. ‘‘Foi há muitos anos. Comecei na igreja com ele’’, lembra.
Com tantos anos trabalhando com sistemas de som, seo José comenta que já até sonhou em trabalhar em emissoras de rádio da cidade como locutor. ‘‘Mas a leitura é pouca e acabei desistindo. Só fiz até o antigo primário’’, justifica. Apesar das dificuldades, ele não fica intimidado em mexer no sofisticado equipamento de som da igreja. Pelo menos com o prato do velho vinil ou com o aparelho de fita cassete não existe problemas. ‘‘O CD eu deixo meio de lado. Mas vou aprendendo devagar’’, garante.
Josoé de Carvalho‘‘Gosto muito do serviço. É bom, ele conversa bem, fala certinho, sempre nos horários que precisa. E o serviço é importante porque quem não é parente também fica sabendo de quem morreu. Conheço o seo José há mais de 20 anos, é uma pessoa boa. Só não faria o que ele faz porque acho que cada um tem que ficar na sua atividade. Pode ser que o tipo da gente não combine com o serviço. Um cara com microfone na mão tem que ter gabarito’’. Edson Rodrigues Vieira, 60, pipoqueiro.


Josoé de Carvalho‘‘Conheço o seo José de vista, ele é um homem bem conhecido na cidade. Sempre escuto o que ele fala. É uma boa porque às vezes pode morrer algum amigo da gente e gente poderia nem ficar sabendo. E a gente vê que, quando ele anuncia, as pessoas que estão na rua param para poder ouvir e ver quem é que morreu. Mas não trocaria de lugar com ele, fazer o que ele faz. Prefiro vender o meu sorvetinho e bater papo com o povão na rua’’. Carlos Alves Negrão, 61 anos, sorveteiro.


Josoé de Carvalho‘‘Acho esse serviço que ele faz muito bonito, faz parte da história da cidade. Em casa todo mundo pára para escutar. Eu mesmo escuto desde sempre, porque vim morar em Ibiporã quando tinha só um ano de idade e moro do lado, apenas uma quadra de lá. Mas, para ser bem sincera, acho que deveria ter algo mais moderno. Isso parece um pouco coisa de cidade pequena. E às vezes não dá para entender direito o que ele fala’’. Monia Piovesani, 18 anos, estudante.


Josoé de Carvalho‘‘Não conheço o seo José. Mas de onde eu moro, lá para baixo da rodoviário, dá para ouvir o som que vem da igreja. Eu acho esse serviço muito importante porque todo mundo fica sabendo quem morreu e quem não morreu. Por isso eu sempre escuto. Mas não é um serviço que eu gostaria de fazer. Esse serviço eu prefiro deixar para ele. Isso ele já faz muito bem e está bom demais’’. Antonio Garcia, 67 anos, aposentado.Josoé de CarvalhoDono da vozJosé Pereira Lopes, ao microfone na igreja matriz, já sonhou em ser locutor de rádio: ‘‘O estudo é pouco’’Lúcio Horta

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