Seo Izaltino Batista Paiva, 57 anos, já assentou muito tijolo na construção de Londrina. Só no Calçadão, ajudou a construir os edifícios Tuparandi e Ribeiro Pena, ao lado da Mesbla. A relação de obras é tão grande quanto a quantidade de histórias que seo Izaltino tem para contar. Em cada obra, ele aprendeu uma lição que pautou não só sua vida profissional, mas também o seu dia-a-dia em casa, na companhia da mulher e dos quatro filhos.
O mestre de obras se orgulha em dizer que na sua vida tudo foi dando certo. Até da profissão, que agarrou por não ter muita escolha, ele aprendeu a gostar - tanto que nem se imagina fazendo outra coisa. Seo Izaltino chegou a Londrina no dia de São Pedro (29 de junho) em 1959, com o mesmo sonho que trouxe tanta gente para o Norte do Paraná: melhorar de vida.
Ele morava em João Ramalho, interior de São Paulo, onde trabalhava como agricultor. O início da vida por aqui também foi na lavoura, na Fazenda Santa Cândida, em Cambé. Foi lá que conheceu a mulher, Maria, com quem se casou.
‘‘Foi amor à primeira vista.’’ Mas nem tudo foi um mar de rosas. Para poder se casar, ele teve que roubar a noiva, o que não chegava a ser incomum naquela época. ‘‘O pai dela se estranhou comigo e como ela tinha muitos irmãos, achei que era melhor fugir de uma vez. Fugimos, nos casamos e depois voltamos pra minha casa’’, lembra.
Da Fazenda Santa Cândida, ele foi para a Fazenda Seara, no Patrimônio Três Bocas, zona sul de Londrina. Lá ficou apenas um ano. Por volta de 1965, começou uma nova vida, desta vez longe da zona rural. Já no primeiro emprego, sentiu as dificuldades da rotina numa cidade.
‘‘Fui entregar refrigerante. O emprego era de um amigo, mas ele me passou porque o serviço exigia roupa limpa todo dia. O rapaz não tinha muita roupa e me ofereceu o lugar dele.’’ Mas o problema foi que seo Izaltino não conhecia os caminhos dos bares - ‘‘tinha acabado de chegar do sítio’’ - e sentiu muitas dificuldades para se adaptar. O novo emprego não durou mais que meio dia.
Foi então que surgiu a oportunidade para trabalhar na construção civil, como servente de pedreiro, função que exerceu por apenas três meses. Seo Izaltino acredita que a sorte não bate na porta duas vezes. Por isso, logo que soube que na obra onde trabalhava estavam precisando de carpinteiro, ele se candidatou para a vaga. O primeiro teste não foi muito bom.
‘‘O mestre de obras me pediu para complementar umas vigas de baldrame e eu não conseguia de jeito nenhum. Fui cortando a madeira, que ficava cada vez menor e o serviço não saia. Ele então chegou perto de mim e falou: - Você está igual o alfaiate que pegou um corte de pano pra fazer um terno e no final só saiu um bon钒. Em vez da vaga que pleiteava, ele passou a ser ajudante de carpinteiro.
Uma das obras mais antigas que ele ajudou a construir - e que ainda hoje permanece intacta - é o armazém do extinto Intituto Brasileiro do Café (IBC), na saída para Cambé, erguido por volta de 1965. Ele se diverte ao lembrar de um caso que protagonizou, envolvendo o mestre de obras daquela construção. ‘‘Eu estava abaixado e ele viu que eu colocava uma forma de bloco de concreto de um jeito errado.’’ Irritado, o mestre, que era paulista, foi logo esbravejando. ‘‘Minha Nossa Senhora, eu vou ficar louco neste Paraná.’’
Izaltino Paiva também participou da construção do Jardim Alvorada (zona oeste), do Com-Tour e do Ginásio de Esportes de Rolândia. Sem contar as várias fábricas da Coca-Cola, construídas nos estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.
Depois de começar a fazer carreira na construção civil, seo Izaltino só deixou a área uma vez. Em 1993 resolveu abrir um sacolão. ‘‘Quebrei a cara e voltei rapidinho para o que sabia fazer.’’
Comparando a época em que começou a trabalhar com os dias de hoje, seo Izaltino diz que muita coisa mudou e para melhor. ‘‘Antes a gente trabalhava sem segurança. Hoje a maioria das empresas fornece todos os equipamentos necessários para o trabalhador.’’ Além da maior segurança, ele ressalta a tecnologia como uma aliada da construção civil, tornando muitas tarefas mais fáceis. ‘‘Mas tem muita coisa antiga que ainda é melhor que as novidades’’, comenta ele.
Na construção do Ginásio de Esportes de Rolândia ele diz ter aprendido muita coisa. Além de ser a obra que marcou sua passagem de encarregado de obra para mestre de obras, lá ele sofreu o único acidente de sua carreira. ‘‘Cheguei na obra e uns dias depois o mestre teve que sair de lá e vir para a construção da UEL (Universidade Estadual de Londrina). Fiquei sozinho para tocar a construção.’’ Foi um teste de fogo. O projeto previa uma cobertura diferente. Até então ele nunca tinha trabalhado com algo parecido.
‘‘Eu pressentia que tinha alguma coisa que não ia dar certo. Na hora de tirar o escoramento da cobertura, o telhado desceu além do previsto. Nove pessoas ficaram feridas naquele acidente. Eu machuquei a perna porque tive que pular de uma altura de 11 metros.’’
Mesmo ferido, no dia seguinte ele voltou ao trabalho. A obra não podia parar porque precisava ficar pronta para os Jogos Abertos de 1974. Mas o acidente assustou seo Izaltino. ‘‘Pensei em sair de lá e até falei para o dono da construtora, o doutor Ézaro (Ézaro Medina, proprietário da Construtora Plaenge). Aí ele me falou uma coisa que nunca mais esqueci. Ele virou pra mim e disse: - Se você quiser, você sai. Outro vai entrar e terminar a obra. Mas se você ficar, quando tiver 60 anos vai poder passar aqui com seus netos e dizer que essa obra foi você quem fez’’.
É isso que seo Izaltino faz hoje em dia, quando passa em frente a uma obra que ajudou aconstruir: ‘‘Sinto orgulho de mostrar para meus filhos e netos as construções onde trabalhei.’’


PERFIL
Nome: Izaltino Batista Paiva
Idade: 57 anos
Data que chegou em Londrina: 29 de junho de 59
Profissão: mestre-de-obras
Obra que marcou sua vida: Ginásio de Esportes de RolândiaJosoé de CarvalhoTrabalhoIzaltino Paiva, mestre de obras, em cada construção uma lição de vida: ‘‘Sinto orgulho ao mostrar aos meus filhos e netos as obras que fiz na cidade’’Benê Bianchi

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