Há pouco mais de 45 anos, seo Hugo Gonçalves, hoje com 85, recebeu um convite que mudaria sua vida. Na época, ele, que é mais conhecido como ‘Paizinho’, morava e administrava uma fazenda em Astorga (80 km a oeste de Londrina). Foi quando Luiz Picinin, fundador do Lar Infantil Marília Barbosa, de Cambé, fez questão de sua presença na inauguração da instituição. A solenidade, para a qual ele não recusou o convite, foi realizada dia 29 de março de 1953.
O que seo Hugo não esperava é que ele seria convidado para dirigir o lar, uma função que jamais havia pensado em exercer. No começo, ele não teve dúvidas e recusou a oferta. ‘‘Respondi que sabia lidar muito bem com o pessoal da roça, mas não seria capaz de cuidar de crianças.’ Mas após seis meses de muita insistência, não viu outro jeito senão abandonar o trabalho de administrador de fazendas para administrar os poucos recursos destinados aos cuidados de dezenas de crianças órfãs ou simplesmente abandonadas pelos pais.
‘‘Não me arrependo. Se o tempo voltasse, não demoraria tanto para responder o convite do senhor Paulo’’, diz Paizinho. Hoje, o lar tem 15 meninas internas, das quais 10 recebem visitas esporádicas do pai ou da mãe; e outras 79 crianças semi-internas. Mas já teve época pior. ‘‘Chegamos a ter 70 internas,’ comenta seo Hugo.
Josoé de CarvalhoSaudades‘Paizinho’ diante das fotografias das meninas que já deixaram o Lar Marília Barbosa: mais de 300 filhosEle não sabe quantas crianças passaram pelo lar, mas calcula que sejam mais de 300. ‘‘Tenho filhos espalhados por esse Brasil todo. Sempre recebo um telefonema ou um cartão de uma delas.’’ Seo Hugo também não tem receita sobre como manter um lar funcionando, sem deixar faltar nada para as crianças. ‘‘Aqui as coisas acontecem. A comunidade doa um pouco, fazemos promoção, temos uma gráfica, e assim a coisa vai andando.’’
Com dificuldades, seo Hugo sabe lidar desde pequeno. Logo aos 13 anos recebeu um presente que selaria seu futuro por alguns anos. No dia de seu aniversário, ganhou das mãos do pai um embrulho. Ao abrir, descobriu que se tratava de uma marreta. O presente era um aviso de que a partir daquele dia ele deixaria sua função de lidar com animais para quebrar pedras na pedreira do sítio. ‘‘Trabalhei lá até os 26 anos.’
O sítio ficava em Matão, no interior de São Paulo, de onde seo Hugo só saiu após casar e ter um filho para ir quebrar pedra numa outra pedreira, em Campinas (SP). Era o ano de 1946. ‘‘Queria mudar de vida, mudar de cidade. Então fui quebrar pedras diferentes,’’ brinca Paizinho. Em Campinas nasceu o segundo filho.
Antes de vir para o Paraná, a família voltou para Matão e de lá foi para Camburi, na mesma região. Seo Hugo foi convidado para administrar uma fazenda de café. ‘‘Aprendi muito lá. Fiquei dois anos e então vim para o Paraná abrir uma fazenda para um primo.’ Ele se orgulha em contar que quando chegou na fazenda, localizada a 35 quilômetros de Londrina, havia 20 mil pés de café e ao sair, quatro anos depois, deixou 220 mil pés.
Seo Hugo e a família passaram por várias fazendas no interior do Paraná antes de conhecer o Lar Marília Barbosa. ‘‘Só quando cheguei aqui e resolvi abraçar essa causa, descobri minha verdadeira vocação.’ Ele não se dedica apenas a administrar o Lar. Seo Hugo é considerado por todas as crianças internas como um pai. Na sala onde trabalha, ele mantém dezenas de porta-retrados das meninas e conta um pouquinho da história de cada uma. Nem sempre as lembranças são boas.
Ao pegar uma das fotos, ele conta sobre a morte da menina Tauane, causada por pneumonia, há quatro anos. ‘‘Ela chegou aqui pequenininha. Tempos depois foi ficando doentinha, com febre. Infelizmente, ela não resistiu.’ Seo Hugo também não de esquece de Verônica, uma interna que chegou bebê e morreu aos 11 anos, vítima de queimaduras. O acidente ocorreu num sítio, onde a menina passava férias. ‘‘Foi um dia muito triste.’
A maioria das lembranças, no entanto, é de alegria. Mesmo aos 85 anos, ele mantém o hábito de se reunir com as meninas duas vezes por semana, à noite, para falar sobre as dúvidas e as expectativas de cada uma delas. ‘‘Falamos sobre tudo’’, resume. Ele não fica um dia sem passar pelas dependências do lar, para ver se está tudo em ordem. ‘‘O dia que não entro aqui, pra mim não é um bom dia. Tenho que ver as crianças diariamente.’
O carinho é retribuído. ‘‘Pra mim, ele é meu verdadeiro pai’’, diz Ariane Osório Leite, 11 anos. Ela chegou ao lar com oito meses de vida. Para Ariana de Souza Pantaleão, 14 anos, não é diferente. Ela está no Marília Barbosa desde um ano de idade. Apenas no ano passado voltou a ter contato com a mãe. ‘‘Quando vi minha mãe cheguei a chorar, mas nunca quis ir embora com ela’’, comenta.
O dia-a-dia de seo Hugo é pensar formas de melhorar ainda mais as instalações do lar. Atualmente, ele está empenhado na conclusão de uma praça, com brinquedos para as crianças e até um palco para apresentações. Ele conta que no lar todas as meninas têm liberdade. ‘‘Cada uma delas, as maiores, tem uma chave da porta e pode sair, desde que me dêem satisfação de onde vão, com quem e a que horas voltam.’
No lar, elas ficam até quando querem. Normalmente, só saem para se casar ou estudar. ‘‘Só aqui dentro já fizemos 16 cerimônias de casamento.’ Entre eles, o casamento de um de seus filhos legítimos com uma das internas.
Durante todos esses anos à frente do lar, quase não houve adoção. Não que não tenha aparecido gente interessada em adotar uma das meninas. ‘‘De vez em quando aparece alguém. Não que a gente não queira dar, mas eu faço corpo mole. Amo muito essas meninas. Elas me cativam demais.’

PERFIL
Nome - Hugo Gonçalves
Idade: 85 anos
Profissão: administrador de lar
Apelido: ‘Paizinho’
Vocação: cuidar de criançasJosoé de CarvalhoDedicaçãoSeo Hugo, 45 anos cuidando de crianças: ‘‘Se o tempo voltasse, não demoraria tanto para aceitar’’Benê Bianchi

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