Curitiba - É comum, nos dias de hoje, associar isolamento com ciberdependência (o vício em internet). Como se a web fosse o agente responsável por ''encarcerar'' as pessoas em casa, privando-as do contato com a realidade. Para alguns especialistas, no entanto, o escapismo virtual é mais um sintoma, uma consequência das fobias sociais que acometem o indivíduo contemporâneo.
''A culpa não é da máquina. O computador é uma rota de fuga, uma tentativa de se manter saudável numa sociedade que não está preparada para lidar com as pessoas mais sensíveis'', afirma a psicóloga Marilza Mestre, fundadora do instituto que leva seu nome.
Marilza vai além. Defende a ideia de que o fóbico social é uma espécie de ''sentinela'' num mundo em que o resultado é mais importante do que o processo. ''Perdemos a possibilidade de brincar. Agora é cada um por si e todos sozinhos na cidade. Por isso penso que essas pessoas representam uma reação humana a tudo isso'', diz.
Rosely Hauer, coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Evangélica, em Curitiba, chama a atenção para outro fator desestabilizante: as novas estruturas familiares. A começar pelo fato de que as famílias estão cada vez menores. ''Convivia-se com muito mais gente antigamente. Hoje, mesmo os avós não estão mais com os netos, porque também precisam trabalhar. E o repertório de relacionamentos interpessoais vai diminuindo'', explica.
Nos consultórios, há fóbicos de todas as idades e perfis. Muitos deles até conseguem estudar e trabalhar, desde que a convivência não tenha um caráter afetivo ou envolva intimidade. O isolamento, portanto, é interior. ''Tenho um paciente que é professor de Filosofia, ou seja, entende do ser humano. Mas ele simplesmente não consegue se relacionar com ninguém fora da faculdade'', conta Marilza.
Se não tratado, o problema evolui até o ponto em que o indivíduo se vê impedido de desempenhar suas atividades. Como o jovem cliente de Rosely que largou a faculdade e praticamente se trancou num pequeno apartamento durante seis meses. Só saía de casa para jogar com meninos bem mais novos na lan house da esquina. ''O pai é distante, física e emocionalmente. E a mãe, nada afetiva. Para piorar, ele recebeu uma educação feminina, cheia de recatos. Tanto que, aos 18 anos, nunca tinha ejaculado'', diz a psicóloga.
Normalmente comportados e inteligentes na infância, esses pacientes crescem sem preocupar a família. Pelo contrário. Em um contexto de insegurança, os pais até preferem que os filhos sejam mais caseiros. Quando se dão conta, o estrago já está feito.
Quanto ao tratamento, Marilza afirma que o primeiro passo - e o mais importate - é acolher o paciente. Superada essa etapa, a terapeuta incentiva que o cliente faça pequenas concessões, buscando um equilíbrio na sua relação com o mundo. E se pergunte: ''O que posso renunciar sem perder a minha essência?''
Nesse sentido, o veneno pode ser a cura - e a máquina se torna uma ponte para a realidade. Marilza conta que já sugeriu a um paciente que ele entrasse em salas de bate-papo na internet (para, ao menos, trocar ideias com outras pessoas). Rosely, por sua vez, motivou o rapaz que nunca havia ejaculado a ver vídeos eróticos no computador. Hoje, elas garantem, os dois apresentam progressos consideráveis.
''Costumo dizer que essa pessoa sensível é uma Ferrari, um carro que responde fácil e rapidamente aos estímulos. Já a sociedade é uma estrada em mau estado, esburacada, Mas o carro vai ter de rodar nela'', compara Marilza.

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