Londrina - A sensibilidade começa na ponta dos pés e logo se espalha pelo corpo todo. "Eu sigo essa linha na sala e depois percebo os gestos das coleguinhas. É fácil", explica com muita naturalidade a pequena Yasmin Alves, de apenas 8 anos. A bailarina participa de uma das oficinas do Instituto Roberto Miranda, antigo Ilitc (Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos). A linha a que ela se refere nada mais é que uma fita crepe sobre um barbante que indica os limites da sala de aula. As alunas sentem o relevo do cordão com a ponta dos pés.
Yasmin nasceu com glaucoma congênito e é deficiente visual. Ela enxerga muito pouco. Consegue ver apenas vultos e cores muito fortes. Mas com o corpo sente a presença das colegas, reconhece a voz da professora e vai em direção à mãe sem orientação. "No começo eu tinha medo. Começar não é fácil. Agora eu sou muito feliz aqui na aula porque eu me movimento. Eu faço tudo!", conta orgulhosa.
Aos poucos, a bailarina fica mais independente e ensina a mãe a perceber os pequenos detalhes da vida. "Aprendo muito com ela. Ela sente cheiros que eu não notava, escuta coisas que eu não percebia, sente as texturas e me faz aprender a descrever coisas que ela não pode tocar", destacou a mãe Andréia Alves, que a acompanha nas aulas.
Emili Gabrieli, de 10 anos, tem baixa visão, mas nada que a impeça de ajudar a colega. "Eu faço natação, balé, hidroginástica e gosto de ajudar as pessoas", resume a bailarina, sorrindo ao lado da amiga Julia Almeida, de 11 anos, que não percebe vultos, cores e tem deficiência visual total. "Na primeira aula, eu tive muito medo. Não sabia o que era balé, mas a professora dá muita atenção e carinho. Já caí várias vezes para aprender a dançar. Eu não me machuco, mas faço até conseguir. Estou quase conseguindo fazer espacato!", diz sorridente.
É essa persistência que surpreende a professora da oficina, Sabrina Rafaela Bueno, que vê um futuro brilhante para as novas bailarinas. "Já dei aulas para outras turmas com crianças sem deficiência. Elas desistem bem mais rápido. A força de vontade dessas meninas vai muito além do que a gente possa imaginar. São muito determinadas", avalia.
Dez alunas, com idade entre 5 e 12 anos, participam do projeto "Dançando um Sonho". A professora orienta as crianças por meio da fala e da descrição de cada movimento. Algumas vezes é necessário corrigir a postura das bailarinas. "É preciso entrar no mundo delas. Com o passar do tempo, elas desenvolvem uma melhor percepção corporal, caminham com mais segurança e ficam mais independentes. São desafios e movimentos que elas não fazem diariamente. Aprendo muito com elas. A limitação está só na nossa mente. A gente reclama demais da vida", destaca Sabrina.
O Instituto Roberto Miranda oferece oficinas gratuitas de balé, dança, inglês, espanhol e goalball, futebol para cegos. Crianças e adultos com deficiência visual total ou parcial podem participar. A entidade filantrópica é mantida com recursos municipais e estaduais e recebe doações. Mais de 150 pessoas são atendidas.

Serviço:
Crianças a partir de 5 anos e adultos com deficiência visual total ou parcial podem participar da oficina de balé. Inscrições podem ser feitas pelo telefone (43) 3327-4330

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