Silvana Leão
Vera Lucia podia ter Souza, Alves, Silva ou Pereira no nome. Mas não. Ela nasceu Vera Lucia Guerra, e como que predestinada, fez jus ao forte sobrenome. A vida nem sempre foi fácil para essa guerreira. Separou-se do marido quando os três filhos ainda eram pequenos e o salário que ganhava no Fórum de Londrina como comissária de menor mal dava para as despesas. Era comum, na época, levantar de madrugada para fazer pães e biscoitos, que vendia entre os colegas de trabalho para complementar a renda.
A chance de tornar-se oficial de justiça veio aos 45 anos, por intermédio de um juiz, que a aconselhou a prestar o concurso público. Achou que não tinha chance, sequer tinha o dinheiro para a inscrição. Mas aceitou o desafio. Apertou o orçamento e recorreu aos ‘‘bicos’’ para levantar a quantia necessária. Atravessou noites em claro em cima dos livros, armou-se de coragem e fez bonito: passou em 2º lugar, tornando-se a primeira oficial de justiça de Londrina.
Além da brusca mudança na rotina de trabalho - como comissária de menor, estava acostumada a atender advogados e famílias de crianças de trás de um balcão - Vera enxergou, pela primeira vez, a perspectiva de viver sem tantas dificuldades. ‘‘Meu salário passou de 15 para 98 cruzados. Foi tão gratificante que compensou o sufoco que passei na época do concurso. Foi como se eu tivesse lavado minha alma’’.
Hoje, aos 56 anos, a oficial mora sozinha - ou melhor, com o Edmundo e o Frederico, um fox e um yorkshire que lhe fazem companhia - e enfrenta, às vezes, compromissos de trabalho que extrapolam os horários convencionais. Já chegou a ficar até meia-noite de plantão aguardando uma pessoa retornar para a casa. Vera não pensa duas vezes se tiver que sentar na calçada e enfrentar horas a fio de espera. Ossos do ofício.
E ossos duros de roer são o que não faltam nesta profissão. Casos de pessoas desesperadas, que recorrem à violência como forma de intimidação são comuns no dia-a-dia de Vera Guerra. ‘‘Já tive o revólver apontado no peito duas vezes’’. Em uma das vezes, o requerido trancou a porta do escritório, colocou a arma sobre a mesa e a ameaçou: ‘‘Vamos, me intime agora’’.
Tentando não demonstrar o medo, a oficial usou a tática que se tornou a marca registrada de seu trabalho. Conversando com jeito, esperou até que o homem se acalmasse e a soltasse do escritório. ‘‘Hoje ele é meu amigo’’, conta Vera, que tenta manter a todo custo a discrição e o respeito pela pessoa, seja qual for o crime cometido por ela. ‘‘Sempre faço questão de explicar muito bem a situação. Não chego impondo nada, porque toda pessoa que tem algum débito com a justiça está psicologicamente abalada. Procuro fazer do oficial de justiça uma figura humana e paciente’’.
Porém, a filosofia de nunca expor os que são procurados pela justiça nem sempre tem um final feliz. Uma das histórias lembradas por Vera é a de uma citação que foi fazer ao diretor de uma grande empresa da cidade. Chegando à recepção, ela, como sempre, fez de tudo para não revelar quem era e por que estava ali.
‘‘Eu dizia à recepcionista que o assunto era particular, mas de tanto ela insistir, mostrei discretamente o timbre do Ministério da Justiça no papel’’. Segundo a oficial, a moça entrou e avisou o patrão, que voltou fazendo o maior escândalo, gritando que todos ali sabiam de seus problemas. ‘‘Fazendo ofensas, ele me expulsou do escritório, mas nem assim eu deixei de falar com calma e informá-lo que estava citado.
Para Vera, as medidas mais envolventes que fazem parte de sua função são as ações de despejo e prisão, que exigem mais tática. E, neste ponto, ela acha que as mulheres levam vantagem na profissão, por serem mais sensíveis e menos numerosas (ao todo são quatro concursadas em Londrina), o que permite passarem despercebidas, quando necessário. A maior fragilidade física é driblada, em situações complicadas como despejo e reintegração de posse, com reforço policial ou acompanhamento de outro oficial.
O preconceito por ser mulher, em um espaço até então só ocupado por homens, foi grande no começo. No início, enfrentou a desconfiança até dos advogados, não acostumados a trabalhar com ‘‘oficialas’’ (este é o termo que aparece nos documentos oficiais). Porém, o forte senso de responsabilidade e criatividade de Vera acabaram conquistando a todos. Para tornar as certidões encaminhadas aos juízes menos sisudas, por exemplo, ela várias vezes relatou o seu trabalho através de poemas. Em um deles, Vera escreveu:
‘‘Peço até que me desculpe,/A tamanha ousadia./No entanto com muito acato,/Traço em verso meu relato,/Trazendo a informação./Na busca de todo o dia/Cumprindo a determinação’’./
O ex-juiz da 4ª Vara Cível, Ricardo Lopes Sampaio, chegou a responder da mesma forma. Em uma das estrofes, ele conclui: ‘‘Nada, pois, para acrescentar/À certidão da ilustre oficiala/A não ser, é claro, admirar/A beleza de como ela fala’’./
Todas as certidões redigidas por Vera terminam, invariavelmente, com a frase: ‘‘Do ato dou fé que tenho, como arma no coração’’. A veia artística da oficial é visível em cada canto de sua casa. Nos quadros e paredes que pinta, nas belas peças em crochê. ‘‘Não consigo ficar parada, vendo TV’’, confessa, revelando que ainda pretende frequentar os corredores do Fórum por muito tempo. ‘‘Vou ficar velhinha e continuar na profissão. Não quero me aposentar antes do tempo, porque a vida ficaria muito vazia’’.

PERFIL
Nome: Vera Lucia Guerra
Profissão: oficial de justiça
Idade: 56 anos
Característica: respeito e paciência com todos
Sonho: trabalhar no Fórum até ficar velhinha

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