Sensação que não pertence à sociedade
Ele admite que cometeu tantos assaltos que nem se lembra mais quantos. Reconhece que, se quisesse, teria acesso fácil e rápido a todo o aparato - parceiros, armas, carros e informações quentes - para continuar atacando joalherias, bancos ou qualquer outro estabelecimento que lhe pudesse render de uma vez só um bom dinheiro. Mas a vida passou. Hoje este senhor bem apessoado, de fala mansa, articulada, garante que está tentando abandonar a vida criminosa que matou todos seus antigos companheiros de crime, cobrou muito mais do que ele ganhou e roubou-lhe quase a metade de seus atuais 60 anos.
Em entrevista concedida à FOLHA dias após conseguir a liberdade definitiva, o senhor ''X'' hoje nem revela seu nome. Quer preservar a si próprio e as filhas e netos, ou seja, suas únicas referências familiares. Após passar 26 anos e 2 meses trancafiado atrás de grades imundas, colecionando histórias de humilhação e desrespeito, ele fala por experiência própria que cadeia não regenera ninguém e só gera mais violência. ''Do lado de dentro, a gente tem uma sensação de que não pertence à sociedade que está do lado de fora'', atesta, revelando que esteve nas principais prisões paranaenses e outras do interior de São Paulo.
O senhor ''X'' recorda que o primeiro crime - um golpe de estelionato usando folhas de cheque em junho de 1980 - lhe rendeu os primeiros 47 dias de prisão. Tinha 30 anos. Daí para ações mais ousadas foi questão de muito pouco tempo. ''Nosso grupo era formado por mim, meu irmão, um sobrinho e mais dois companheiros. A gente fazia de tudo, mas era mais assalto a banco e a joalherias'', revela. ''Todo mundo sempre começa com coisas leves, vai conhecendo pessoas mais graduadas e acaba se envolvendo até o pescoço'', diz. O amor próprio, a compaixão pelo próximo, a convivência familiar saudável... Tudo isso vai ficando em segundo plano.
Pelo meio do caminho tombaram o irmão, o sobrinho e os demais comparsas de assalto. As gordas quantias que arrecadavam em cada ação bem sucedida também já não existem mais. De volta do inferno, mesmo sabendo que bastaria um telefonema para retomar a vida criminosa, ele assegura que quer outra vida. ''O crime não compensa. Ganhava muito dinheiro muito rápido mas perdi muito mais do que roubei. Agora só quero esquecer que um dia eu estive no crime'', garante. (L.A.)





