A importância do respeito às diferenças culturais dentro de uma mesma comunidade para a eficácia dos programas de saúde foi o assunto discutido ontem no segundo dia do Seminário Cultura, Saúde, Doença, promovido por órgãos como o Ministério da Sáude, Secretaria Municipal de Ação Social e Universidade Estadual de Londrina (UEL). Pela primeira vez em quatro anos, os organizadores abriram a discussão para além dos povos indígenas.
Entre os conferencistas do dia estavam os antropólogos Luiz Fernando Duarte, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, e Jean Langdon, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Eles falaram sobre ‘‘Doença como Experiência’’ e ‘‘Doença, Sofrimento, Perturbação e Pessoa’’, respectivamente. Segundo Duarte, o conceito de doença e suas representações variam de uma cultura para outra e também no tempo. ‘‘O sofrimento humano é mais amplo e complexo do que as avaliações médicas podem mostrar. O não-reconhecimento dessa situação pode acarretar perda na eficiência dos tratamentos. É nesse ponto que a interdisciplinariedade e os conceitos de antropologia podem ajudar os profissionais da saúde’’, explicou Duarte.
A luta para essa conscientização é antiga e aparece em pontos isolados do planeta. Jean disse que não existe um país onde ela seja mais avançada. A resistência ao absolutismo do conhecimento científico é a maior barreira, principalmente na cultura ocidental.
Segundo Marlene de Oliveira, coordenadora do programa Kaingang na Secretaria Municipal de Ação Social, o índio tem conceito diferente de doença, uma maneira particular de encará-la e tratá-la. ‘‘Para ele, a dor não é pontual. É a consequência da relação entre corpo e espírito. Quando o índio adoece toda a família sofre com ele’’.
O resultado prático dessas discussões é a criação de um programa nacional para a formação de profissionais destinados ao trabalho com os povos indígenas. Marlene é uma das pessoas convocadas para dar esse curso nos 34 distritos em que foi dividido o Brasil neste programa. Para 2.001, a proposta é realizar o 2º Seminário Sobre Alcoolismo entre os Índios, assunto que já foi debatido em 98.
Hoje é o último dia do seminário. Entre 8h30 e 17 horas, antropólogos, médicos, nutricionistas e psiquiatras vão discutir as patologias que atingem a comunidade indígena e como elas devem ser tratadas. Participam desse encontro profissionais da saúde do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e conferencistas de várias partes do Brasil e também Estados Unidos.

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