Seminário discute como avançar na ciência sem perder a ética
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de outubro de 1998
Paulo Grein 
Especial para a Folha
Conciliar pesquisa científica e dignidade humana. Esse é o objetivo do Seminário de Bioética e Biodireito, que reúne em Curitiba advogados, profissionais de saúde e biólogos. Em pauta na Europa desde 1980, quando surgiram as primeiras experiências de clonagem de animais, a Bioética só começa agora a ser discutida no Brasil. Começamos a discutir a ética nas pesquisas científicas porque estamos no fundo do poço da dignidade humana, declarou o padre Léo Pessini, que proferiu ontem palestra sobre Bioética: Perspectivas Latino-Americanas e Desafios para o Século XXI.
Ainda recente na América Latina, a Bioética é uma matéria que reúne cientistas, sociólogos, psicólogos, médicos, religiosos e juristas para tentar definir os parâmetros éticos que delimitarão os avanços da ciência. Clonagem, aborto, transplantes de órgãos, inseminação artificial e eutanásia são procedimentos polêmicos que mudaram radicalmente a vida humana nos últimos anos.
Do ponto de vista científico, os benefícios são inquestionáveis, mas analisados sob a ótica da Bioética podem ferir os princípios básicos dessa nova matéria, que são dignidade humana e felicidade. O ser humano não pode servir como matéria-prima para interesses científicos, afirma Pessini. Para ele, sem balizamentos éticos a pesquisa científica se torna perigosa e distante dos valores humanos.
Um dos principais pontos de discussão da Bioética é o Projeto Genoma Humano, que pretende até o ano de 2.005 fazer o mapeamento genético completo do ser humano, possibilitando o diagnóstico de cerca de seis mil doenças ainda no recém-nascido, pelas tendências genéticas de cada indivíduo. Será, talvez, o maior avanço da história da Medicina, mas segundo Pessini, requer criteriosa vigilância ética, pois poderá surgir um novo tipo de discriminação, pela herança genética. O mapeamento genético poderá definir também as características psicológicas do indivíduo, e alguns especialistas consideram que seu uso pode ser também maléfico, se for, por exemplo, exigido no mercado de trabalho. A preocupação com o curso do Projeto Genoma é tão grande que cerca de 10% de seu orçamento destina-se ao aprofundamento das questões éticas que o envolvem.
Hoje serão discutidos temas como a interrupção da gravidez em casos de constatação de distúrbios graves no feto e a lei de doação de órgãos. O seminário acontece no 10º andar do Palácio da Justiça, no Centro Cívico.


