Anualmente, morrem no Brasil cerca de 120 mil pessoas vítimas de trauma; enquanto que outras 100 mil ficam inválidas em consequência de sequelas deste mesmo mal, que se transformou num preocupante fenômeno mundial neste fim de 2º milênio. Trauma, dentro do contexto da medicina, é qualquer dano à saúde humana causado por fatores externos como acidentes de trânsito, agressões interpessoais - com tiro de revólver, facadas etc. -, quedas, afogamentos, queimaduras e outros.
Estes e outros dados estão sendo divulgados com intensidade nos últimos, dentro da programação da 1ª Semana do Trauma, promovida em conjunto pela Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado e Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Os principais objetivos do evento são alerta e conscientizar a população para as causas do trauma, suas consequências e possíveis soluções.
Em Londrina, as atividades da Semana do Trauma estão sendo organizadas pelo médico-cirurgião Antonio Cesar Marson e pela enfermeira Selma Maffei de Andrade, ambos professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e envolvidos na criação de um grupo interdisciplinar de estudos sobre o trauma na cidade.
Eles não dispõem de dados precisos sobre a incidência do mal em Londrina, mas explicam que o trauma - que já é reconhecida como doença pela Organização Mundial de Saúde - é a terceira causa de mortes na cidade, imediatamente atrás das doenças ligadas ao aparelho circulatório (derrames, infartos etc.), e dos diversos tipos de câncer.
O trauma é responsável por cerca de 350 óbitos anuais em Londrina. Entre os diferentes tipos de causas do trauma, destacam-se os acidentes automobilísticos, com 45%, e os homicídios com armas de fogo (20%). ‘‘As mortes causadas por acidentes de trânsito em Londrina estão muito acima da média nacional: 34 óbitos por ano em cada grupo de 100 mil habitantes, contra 20 mortes no restante do país’’, comenta Selma de Andrade, que concluiu recentemente sua tese de doutorado estudando o tema na Universidade de São Paulo (USP).
No Brasil todo, o trauma já é a segunda maior causa de mortes, vindo atrás apenas das doenças cardiovasculares e antes do câncer. Em Londrina e em todo o país, o trauma é a principal causa dos óbitos entre as pessoas com menos de 40 anos de idade. ‘‘O problema é muito grave, porque atinge uma parcela da população no auge da sua produtividade. Isto gera uma questão sócio-econômica complexa e preocupante, além de muitas perdas para as famílias das vítimas’’, afirma médico Antonio Cesar Marson, que é especialista em doenças do aparelho digestivo.
Ele explica que os cuidados com o trauma envolvem quatro fases principais: prevenção, atendimento pré-hospitalar, atendimento hospitalar e reabilitação física e readequação social da vítima. ‘‘A primeira é, obviamente, a mais importante. Mas é complexa porque está ligada a questões histórico-culturais, educativas e sociais. Peguemos por exemplo as batidas de trânsito. Elas não são acidentais, são previsíveis e têm causas bem definidas. Portanto, elas podem ser evitadas. Mas, para previni-las e evitá-las temos que tomar providências, implementar medidas concretas e investir na conscientização’’, ressalta Marson.
Entre as medidas de antedimento pré-hospitalar, os docentes da UEL destacam como muito importantes os serviços prestados pelas equipes do Siate em Londrina, Curitiba e outras cidades do Estado. ‘‘A rapidez no atendimento e o transporte adequado das vítimas de trauma podem evitar sérias lesões secundárias, além de muitas mortes’’, diz o médico, lembrando que depois das batidas de automóveis a principal causa de trauma que geram atendimentos pelo Siate em Londrina são as quedas involuntárias.
Na fase do atendimento hospitalar, o maior problema, segundo eles, é a constante superlotação dos pronto-socorros, enfermarias e salas cirúrgicas das unidades de saúde da cidade. ‘‘Nossos hospitais estão bem equipados, e nossos profissionais bem preparados. A agravante é que, nos últimos tempos, a demanda tem sido sempre maior que a nossa capacidade de atendimento’’, comenta Antonio Marson. ‘‘A etapa do pós-hospitalar é direcionada às vítimas que ficam com sequelas temporárias ou permanentes. Fisioterapeutas, psicólogos e outros profissionais trabalham, aqui, para recuperar totalmente o paciente ou para a adaptação dele numa nova realidade e a sua reintegração social após ter sofrido o trauma.’’
Só com a internação das vítimas de trauma no ano passado, o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou perto de R$ 290 milhões, o que equivale a 0,07% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. ‘‘Aí não estão computados os gastos com remédios, exames laboratoriais e recuperação dos pacientes. Além disto, temos que levar em conta o custo social do trauma, com os dias de trabalho não efetivados, as aposentarias precoces e os transtornos causas às famílias das vítimas’’, explica o médico e professor da UEL.

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