O sinal fechou. Os poucos minutos que impõe uma pausa no caminho dos motoristas são disputados por Lucas e seus amigos. Pés descalsos, roupas sujas. Mas não pedem, querem vender. São balas, chicletes, chocolates.
Lucas tem 15 anos e desde os nove vende doces nos sinais. Mora no Jardim Felicidade (Zona Leste). Ele não usa o chinelo enquanto anda entre os carros, porque tem medo que na correria acabe arrebentando a correia. Quer ajudar a mãe e os dois irmãos mais novos. Do pai, nem o nome sabe. ''O que eu ganhar hoje vou comprar o gás lá para casa. Acabou ontem. Quando minha mãe chegar do trabalho, vai encontrar o fogão com gás.''
Olhando o menino correndo entre os carros, vimos outro adolescente. Este conversava com pai, animadamente, em um carro de passeio, trajando uniforme de uma escola particular da cidade. Quando o assunto é escola, Lucas não hesita: ''Daqui dois anos farei vestibular. Gosto de matemática. Pensa que eu não sei contar? Para ter lucro eu preciso saber quanto devo colocar de margem no produto que eu compro. Eu ainda vou ser alguém.''
No mesmo sinal, além de Lucas e seus dois amigos, trabalha Maria de Jesus. Uma senhora de 60 anos, com um sorriso de poucos dentes. No primeiro contato, mostrou-se desconfiada. Fugiu, disse que estava trabalhando honestamente e não queria falar. Mais tarde, concordou falar. Com o marido doente, Maria precisa trabalhar para o sustento dos dois. ''Não sei ler, já sou velha. Não consigo outro trabalho. O sinal é o que me resta.''
Preconceito
Paulo Henrique dos Santos, 28 anos, trabalha desde os 15 com acrobacias em semáfaros. Ele aprendeu com um casal de franceses em uma casa lar para menores. ''Fui criado em um orfanato. Um dia eu fugi e comecei a morar na rua. Foi quando conheci o projeto Casa da Vila, no Rio de Janeiro. Lá eu fui educado e aprendi a arte dos malabares.''
O artista de rua fez cursos na Escola Nacional de Circo e começou a trabalhar em Copacabana, onde fazia performances com pernas de pau. Os turistas disputavam para tirar fotos com ele. A decisão de deixar a Cidade Maravilhosa se deu por perceber que as pessoas estavam com medo de dar dinheiro aos artistas de sinal. Muitos acabavam sendo assaltos.
Com o dinheiro que ganhou trabalhando no Rio, foi para Portugal, sendo deportado três anos depois, quando tentava entrar na Espanha. ''No Brasil ganhamos o ano inteiro, na Europa, só no verão. Aqui vou ao banco todo dia, para depositar meu dinheiro. Não confio nas pessoas. No sinal somos alvo da falta de educação e cultura das pessoas. Sou mais feliz lá fora.''

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