Londrina - Morador no Patrimônio Heimtal, Jácomo Violim era o dono das terras onde em 1983 foram construídas as primeiras 1.536 casas do conjunto habitacional que leva seu nome, na zona norte. Jamile Dequech, de família pioneira na cidade, batiza um outro bairro popular na zona sul. Consta que o industrial Ulysses Xavier da Silva, o Vivi Xavier, chegou por aqui em 1940, onde foi vereador e prefeito substituto (1946-47) antes de virar nome de um dos conjuntos mais famosos do Cincão.
São quase exceções, boas exceções, na Londrina dos vários conjuntos habitacionais que homenageiam gente sem qualquer laço afetivo com a cidade. Até 1977, os primeiros loteamentos populares registrados pela Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) não foram personificados. Vitória Régia, Pindorama, Conjunto das Flores, Charrua e São Pedro, todos na zona leste, são alguns exemplos. Foi no primeiro mandato do ex-prefeito Antonio Belinati (1977-1982) que os conjuntos formados na região norte passaram a ter nome de personalidades da vida pública. E aí, políticos, engenheiros, técnicos e diretores do antigo Banco Nacional de Habitação (BNH), responsável pelo financiamento público desses empreendimentos, foram mais lembrados do que muitos pioneiros.
João Paz, Luiz de Sá, Ernani Moura Lima, Maria Cecília, Nubar Borghossian (nome oficial do Semíramis 2) e outros estão no imaginário de Londrina sem terem feito parte da história dela. E isso é bom ou ruim? "Acho que o nome não faz diferença. O importante é o pessoal cuidar do bairro", afirma o porteiro Odias Ladislau, de 58 anos, há 35 morador do João Paz (zona norte). O nome do conjunto é uma deferência a um diretor do BNH no Rio de Janeiro. "Para dar nome a pessoa tem que ser daqui", discorda a aposentada Valdeci Fernandes, 34 anos de Luiz de Sá, outro bairro do Cincão que homenageia um engenheiro do BNH, nascido em Ponta Grossa.
A historiadora Daniela Reis de Moraes está fazendo uma tese de mestrado na UEL sobre a construção da identidade dos Cinco Conjuntos. É um trabalho de formiguinha, já que nenhum órgão da prefeitura, segundo ela, tem documentado para consulta o processo de formação, nomenclatura e zoneamento dos primeiros conjuntos da zona norte. "A maioria dos homenageados da região foi funcionário da própria prefeitura ou dona dos terrenos vendidos para a prefeitura fazer os loteamentos. Tem também engenheiros, arquitetos e urbanistas que não moravam aqui. A população em si não foi homenageada", observa, lembrando de um caso sintomático: Saul Elkind. O ucraniano que nomeia a principal artéria viária da zona norte jamais pôs os pés por aqui. "Ele é pai do David Elkind, urbanista que veio a Londrina a convite da prefeitura para fazer o projeto viário da rodoviária", relata a historiadora, coautora do livro "Essa rua tem história: memórias e sociabilidades da Saul Elkind", disponível na Secretaria Municipal de Cultura.

VALORIZAÇÃO
Daniela Moraes observa que a popularização do nome "Cinco Conjuntos" acabou suprimindo no imaginário da própria população a importância da origem do batismo dos conjuntos da zona norte. "Mais do que os nomes dos bairros, o próprio nome Cinco Conjuntos é mais usado como valorização do lugar onde mora. Se houvesse a preocupação com o porquê dos nomes, já teriam trocado", diz.
Para a professora de História Lindelma Furtado de Melo Chiontato, Londrina deveria reconhecer mais o valor de seus filhos mais antigos. "Temos pessoas com um histórico maravilhoso na cidade e não são lembradas. O processo de escolha de nomes de bairros e ruas infelizmente sofre muita interferência política. Cadê um conjunto com o nome do José Hosken de Novaes?", cobra ela, resgatando o ex-prefeito e ex-governador que morou na cidade até morrer.

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