''Sem vigilância, doenças vão voltar''
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terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Assistindo à correria de brasileiros aos postos de saúde ante ao fantasma da febre amarela, o técnico de endemias aposentado Antônio Aranda Menbrive, 68 anos, constata com desgosto: ''Nosso trabalho foi para o ralo''. Ex-diretor técnico da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) em Londrina, ele afirma que o controle de endemias desandou após a extinção do órgão, em 1990, e alerta: ''Se continuar assim, muitas doenças vão voltar''.
À época em que Menbrive atuou, de 1968 a 1990, a regional londrinense da Sucam era responsável por uma extensa área que incluía municípios da região Centro-Oeste do Estado e até dos Campos Gerais. O ex-diretor lembra que o quadro de funcionários se resumia a 612 pessoas, que atuavam sobre diversas endemias - febre amarela, dengue, esquistossomose, leishmaniose, doença de Chagas.
''Nessa região havia uma vigilância e uma prevenção constantes. Tinha sempre alguém nas áreas de mata observando os macacos. O Aedes aegypt vivia controlado, e se ocorria uma infestação toda a população era vacinada. Havia uma sequência nos trabalhos, havia prevenção, não tinha essa loucura nos postos que a gente está vendo agora'', compara.
A falta de comprometimento dos governantes, diz Menbrive, foi o que fez o Brasil perder o controle sobre endemias como a dengue e, agora, possivelmente, a febre amarela. A estrutura da antiga Sucam foi diluída entre a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e órgãos municipais, ''um grande erro'', segundo o técnico.
''Se as coisas não funcionavam, você tinha a quem cobrar. As pessoas entravam por concurso, vestiam a camisa, tinham pulso firme para lidar com a população. Hoje um único município contrata 300 pessoas sem estabilidade, dá um péssimo treinamento, paga mal para burro''.
Coincidência ou não, o período que se seguiu à extinção da Sucam acompanhou um aumento do número de casos de febre amarela silvestre no Brasil e um salto vertiginoso das ocorrências de dengue. Estatísticas de órgãos federais de saúde apontam o registro de 189 casos de febre amarela nos anos 1980, contra 263 nos anos 1990. De 2000 até o ano passado, já foram 221 casos (confira o infográfico).
Já a dengue - cujo vetor (Aedes aegypt) chegou a ser erradicado do País na história recente, sendo reintroduzido em 1986 - ultrapassou a marca dos 100 mil casos/ano em 1991 e, em 2002, atingiu seu clímax acometendo quase 800 mil pessoas. Em Londrina, não há registros de dengue anteriores a 1994. Naquele ano, surgiram apenas dois casos - ambos importados. Nove anos depois, a doença faria 7.342 vítimas na cidade.


