Sem-teto voltam a ocupar terreno
Dimitri do Valle
De Curitiba
As cerca de 150 famílias de sem-teto que foram expulsas pela PM de um terreno invadido no Parque da Barreirinha voltaram a ocupar a área ainda na noite de quarta-feira quando a operação aconteceu. Os sem-teto passaram todo o dia de ontem reconstruindo os barracos e demarcando novamente os lotes do terreno. Apesar de denunciarem agressões por parte dos policiais, os invasores avisaram que vão resistir a uma nova desocupação, que pode acontecer esta manhã sob o comando do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Na primeira retirada, quatro PMs e sete sem-teto saíram feridos.
Vamos ficar na área até o final. A intenção é resistir, disse José Haroldo Ferreira, 29 anos, um dos coordenadores da invasão. O retorno ao terreno aconteceu num clima de medo e expectativa. Os sem-teto denunciaram que estavam sofrendo ameaças de seguranças contratados pelos donos do terreno. Eles ficaram rondando o lugar durante todo o dia, contou Ferreira. Por volta das 17h40 de ontem, um caminhão que trouxe dez homens para uma residência que fica ao lado da área onde os sem-teto estão causou tensão entre os invasores. Eles se armaram de paus e facões para impedir uma possível entrada dos seguranças, o que não aconteceu.
O responsável pela contratação dos 15 homens que promoveram a derrubada dos barracos na quarta-feira confirmou que se for preciso, vai utilizar de violência para tirar os sem-teto do terreno. A polícia bateu muito pouco. Se fosse uma área minha eu teria tirado essa gente de lá sozinho. É o cúmulo essa gente ficar invadindo a terra dos outros, afirmou o empreiteiro Celso do Vale, 51 anos, que teve a fala coberta de risos por parte de seus seguranças. Vale confirmou ter sido contratado pelo empresário João Carlos Ribeiro, proprietário da construtora Socofer, uma antiga dona da área. Oficialmente, a área pertence à Indústria Farmacêutica Santa Guilhermina. A empresa teria repassado o terreno em regime de comodato para o Lar Bom Pastor, uma instituição que atende crianças carentes e que está localizada próximo ao terreno invadido.
O advogado que representa os sem-teto, Valdemar Reinert, entrou com uma ação no Tribunal de Alçada para derrubar o mandado de reintegração de posse obtido pelo Lar Bom Pastor. Reinert contesta a legitimidade do mandado e argumenta que a instituição de caridade não é a titular do terreno. José Haroldo Ferreira, que integra a coordenação da invasão, reclamava ontem da demora da Justiça em analisar a ação. É um caso emergencial. O tratamento na Justiça está sendo injusto, disse.
Todos os objetos levados pelos seguranças que ajudaram na desocupação não tinham sido devolvidos aos sem-teto até o final da tarde de ontem. O empreiteiro Celso do Vale disse desconhecer o paradeiro dos pertences, apesar de eles terem sido levados em dois caminhões particulares. Só tinha bagulheira, alegou. O sem-teto Valdemar Benites, 21 anos, acusou os seguranças de furto. Além de muitos invasores alegarem estar apenas com as roupas do corpo, os sem-teto também exibiam ontem as marcas dos ferimentos provocados no confronto com a PM na noite de quarta-feira.
Eles (policiais) só não deram mordida na gente. O resto aconteceu de tudo, disse Valmir Soares dos Santos, 36 anos, exibindo o pulso direito arranhado. Mesmo com o risco de apanhar de novo, Francisco Gonçalves de Oliveira, 54 anos, que andava com dificuldade devido aos chutes que disse ter recebido no corpo, garantia ontem que não pretende sair do terreno. Vou apanhar de novo, mas não vou brigar com a polícia. Vou ficar sentado se for preciso, avisou.





