Luís, Maria e Miguel não se conhecem. Sabe-se apenas que eles sobrevivem em pontos distintos de Curitiba, uma cidade que, apesar de ser acompanhada de palavras como ‘modelo’ e ‘ecológica’, teima em apresentar contradições que continuam a pregar peças nos três miseráveis. É gente que têm que submeter-se a viver em terrenos baldios ao lado de shoppings e bancos de praça voltados para a fachada de uma universidade. Nem casa, os personagens dessa história urbana possuem. Eles são os sem-teto.
Mauro FrassonO desempregado Luís Fernando Gbur, 38 anos, e a companheira, Maria Leopoldina Machado, 40 anos, não têm grandes sonhos de consumo. Só querem substituir os gravetos e os tijolos por um utensílio doméstico chamado fogão. ‘‘Tem dia que não dá para fazer fogueira e cozinhar o feijão. A vida não tá fácil não’’, diz Luís, enquanto bebe mais um gole de cachaça - afinal, existe uma concordância corrente entre os mendigos: ‘‘O cobertor de quem vive na rua é a cachaça’’. O revelador dessa filosofia é o ex-agricultor Miguel Olegário, 50 anos.
A bebida fez mesmo mal a Miguel, que deixou de trabalhar na roça, em Bituruna, no sul do Estado, depois que um acidente de trânsito destroçou suas duas pernas. Migrou para Curitiba, onde ele garante a assistência médica quando sente dores. Miguel vive na Praça Santos Andrade, em frente à imponente sede da Universidade Federal do Paraná. A arquitetura do prédio passa despercebida pelo ex-agricultor. O álcool é que é um amigo constante. ‘‘Em que ano estamos?’’ pergunta ele, ao tentar lembrar o tempo em que fez da rua sua morada.
‘‘Meu único irmão morreu de alcoolismo. O meu marido também é alcólatra. Não volto para casa, porque quando ele bebe, quer me bater’’. Esta é Maria Aparecida de Paula, 36 anos, mãe de sete filhos, dos quais seis ainda vivos. ‘‘Cida’’, como gosta de ser chamada, virou uma sem-teto, uma sem-lar. É viciada em crack, uma droga mais poderosa que a cocaína. Quando está drogada ou bêbada, perambulando pela Santos Andrade ou escondida num mocó (construção abandonada ocupada por mendigos que não têm onde dormir), ‘‘Cida’’ confessa que não sabe mais quem é.
‘‘Nem eu mesmo sei como sou. Não consigo me ver. Me fecho dentro de mim. Sou uma pessoa revoltada com a vida’’, desabafa, ao lembrar da perda da mãe aos 10 anos e do pai, quando ainda nem tinha nascido. ‘‘Nunca tive ninguém para me orientar. A única coisa que eu não fiz na minha vida foi matar’’, diz ela, anunciando que está prestes a tirar a vida do marido espancador. No instante seguinte ela corrige: ‘‘Não vale a pena. Vou parar na cadeia e meus filhos vão sofrer’’.

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