Famílias sem-teto que ocupam terrenos no Jardim Gramado, na zona oeste de Cascavel, próximo ao centro da cidade, entraram em conflito com policiais militares na madrugada de ontem e conseguiram impedir a derrubada de casas que construíram ou estavam em obras. Três sem-teto foram presos, outro caiu em um poço que estava sendo aberto e um policial foi ferido, depois de uma hora de escaramuças que poderiam ter terminado com muitos feridos e violência ainda maior, se a PM não tivesse recuado, na tentativa de proteger operários da empresa dona dos terrenos, que iriam demolir as casas.
Cães e máquinasPoliciais davam cobertura para funcionários da empresa dona do terreno destruírem as moradiasA Guaíba Negócios Imobiliários, de Porto Alegre (RS), originária do extinto Banco Sulbrasileiro, é dona dos 220 imóveis que foram invadidos em fevereiro deste ano por famílias organizadas pelo Movimento dos Sem Teto de Cascavel (MSTC). Os terrenos, cada um com valor comercial superior a R$ 15 mil, vizinhos a moradias de classe média, permaneceram baldios durante anos, destinados à ‘‘especulação imobiliária’’, segundo o líder do MSTC, Sílvio Gonçalves, 30 anos. A empresa obteve a reintegração de posse na Justiça ainda em fevereiro, mas os sem-teto se recusam a deixar o local. Trata-se da maior ocupação urbana da história de Cascavel.
A reportagem da Folha havia sido informada da ação da PM ainda na noite de domingo. A Polícia Militar chegou ao local às 5 horas, iniciando a ação às 5h20. Eram apenas 40 soldados e alguns cachorros, sob o comando direto do comandante do 6º BPM tenente-coronel Ailton Lino da Silva. O comandante previu que não haveria ‘‘nenhuma dificuldade’’ para que os operários demolissem as casas (de madeira e de tijolos) da primeira quadra a ser desocupada. A primeira casa a ser derrubada deveria ser a de Sílvio Gonçalves. No entanto, cerca de 80 sem-teto de todas as quadras apareceram e foram para cima dos policiais e dos cachorros.
AmeaçasNo bate-boca com a PM, sem-teto ameaçaram ‘‘derramar sangue’’ se o despejo não acabasseEntre gritos de mulheres com crianças no colo, houve enfrentamento contínuo, no escuro da madrugada. Três sem-teto (um deles demonstrando muita força) que resistiram à ordens tiveram que ser derrubados, algemados e carregados (esperneando) por vários policiais. Outro caiu em um poço de água com 4 metros, que estava sendo aberto. Os sem-teto investiram com paus contra um trator e um caminhão, que seriam utilizados para desmanchar casas e carregar os restos, e cercaram os operários. O comandante do 6º BPM foi continuamente xingado e para evitar previsíveis consequências graves, decidiu mandar a tropa recuar.
O tenente-coronel ouviu os sem-teto gritar que haveria ‘‘sangue derramado’’ se a PM insistisse na ação. Alguns deles passaram a juntar pedras para serem lançadas mas foram contidos por coordenadores. Ailton Lino da Silva gritou: ‘‘Ladrão ou invasor, tratamos igual’’. Um sem-teto indagou: ‘‘Tá na Constituição o direito a um teto?...’’. Reticente, o comandante respondeu: ‘‘Tá, mas a lei é para ser cumprida e vocês têm que sair.’’ Ele se enfureceu com outro que gritou ‘‘o senhor não manda nada, tá aqui só fazendo o serviço dos tubarões’’, mas a seguir se conteve e, usando de muita cautela, preferiu retirar os soldados às 6h20.
Com a saída da PM, os sem-teto começaram a reconstruir a casa do líder. A atitude foi recebida como provocação no comando do 6º BPM. O advogado Aderbal Mello (vereador pelo PT) intermediou negociação, fazendo com que a reconstrução fosse interrompida. Segundo o comandante, Sílvio Gonçalves ‘‘é dono de fazenda’’ e, se ele quisesse, o material da casa que estava construindo no terreno ocupado ‘‘seria levado para lᒒ. ‘‘A PM investigou minha vida e sabe que não tenho nenhuma propriedade’’, disse Silvio. Segundo ele, seu pai ‘‘tem 36 hectares para dividir com outros dez filhos’’. Não há previsão sobre a volta da PM para fazer cumprir a reintegração de posse.
AcidenteUm sem-teto é retirado sem ferimentos de um poço de 4 metros que estava sendo cavadoNo início do mês, policiais mantinham cerco para impedir a entrada de cargas de material de construção na invasão. Empresas fornecedoras de material foram alertadas que os caminhões não teriam acesso aos terrenos. As famílias, que inicialmente se instalaram sob a lona preta, foram informadas que, saindo espontaneamente, as moradias seriam desmanchadas e o material levado para onde desejassem. Tem havido conflitos permanentes entre os sem-teto e famílias antigas na área, que não aceitam a nova vizinhança, cujas construções estariam ‘‘desvalorizando’’ o bairro.

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