Sem-teto querem adquirir área invadida
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terça-feira, 18 de maio de 1999
Paulo Pegoraro 
Famílias sem-teto que desde fevereiro ocupam terrenos do Jardim Gramado, na região central de Cascavel, estão exigindo do Poder Público a desapropriação dos imóveis, ou a oferta de outra área para assentamento com construção de casas pelo sistema de mutirão. Sair simplesmente para ocupar outros terrenos é coisa que não aceitamos, disse ontem Sílvio Gonçalves, 30 anos, uma filha, líder do Movimento dos Sem-Teto de Cascavel (MSTC). Segundo ele, se a Polícia Militar (PM) tentar cumprir à força a ordem judicial de reintegração de posse, as famílias resistirão, porque é uma questão de sobrevivência.
Na madrugada de anteontem, houve conflito generalizado quando a PM tentou dar proteção a operários da empresa proprietária dos terrenos que iriam demolir as moradias construídas pelos sem-teto. Para evitar violência maior, os policiais recuaram - um deles levemente ferido na mão, e três sem-teto presos. Os imóveis pertencem à Sulbrasileiro Crédito Imobiliário, de Porto Alegre (RS), e estão sendo postos à venda através da Guaíba Negócios Imobiliários por R$ 15 mil cada. O Jardim Gramado tem moradores antigos, cujas casas são de padrão médio e alto, e é considerado uma das áreas nobres da cidade pela proximidade do centro.
Barracos ou pequenas casas de madeira ou tijolos erguidas pelos sem-teto contrastam e desvalorizam as edificações vistosas dos moradores antigos, que não aceitam os sem-teto como vizinhos. Os principais líderes da oposição são os empresários Severino Paludo e Nelson Lenkhul, que apontam também o aumento dos problemas de segurança pública depois da ocupação dos terrenos baldios - eles permaneceram tomados pelo mato durante anos. No total, havia 295 terrenos sem ocupação, dos quais o MSTC garante ter havido a posse de 220. A PM diz ter levantamento indicando que o número é inferior.
Sílvio Gonçalves, que diz ser marceneiro e ex-assessor da bancada do PT na Câmara de Cascavel, observa que até hoje, ninguém se dispôs a negociar uma alternativa. Segundo ele, o único que apareceu para negociar foi o comandante do 6º BPM. Veio acompanhado da tropa, mandando que saíssemos. O tenente-coronel Ailton Lino da Silva, que comandou a operação na madrugada de anteontem, observa que busca apenas cumprir o que determina a lei, independente de considerar a questão social das famílias. O advogado Aderbal Melo (vereador pelo PT), que orienta o MSTC, também conclama à negociação.
A proposta do MSTC é que os terrenos sejam desapropriados em negociação envolvendo os débitos de IPTU, de mais de R$ 160 mil, que a empresa deve ao Município, e os sem-teto se dispõem a pagar complementarmente valores moderados. Outra alternativa seria a desapropriação de área em outra região da cidade.


