Sem-teto ocupam 300 lotes em Cascavel
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Paulo Pegoraro 
Dezenas de famílias de sem-teto encerraram ontem a ocupação de cerca de 300 lotes baldios, no Jardim Gramado, zona leste de Cascavel. No bairro, moram famílias de classe média e alta. Os terrenos, avaliados entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, são considerados nobres pela localização próxima ao centro da cidade, mas estão envolvidos em discussões judiciais entre proprietários originais e o extinto Banco Sul-Brasileiro e seus sucessores em créditos. Somente 30 terrenos baldios, pertencentes a uma empresa local, não foram invadidos.
As 310 famílias dizem integrar o Movimento dos Sem-Teto, apoiado por entidades ligadas aos trabalhadores. Os invasores dizem que entraram nos terrenos porque, além de dúvidas sobre os verdadeiros donos, os lotes estavam abandonados. Há 14 anos não são pagos tributos e taxas municipais sobre os terrenos. Um dos coordenadores da ocupação, Sílvio Gonçalves, disse ontem que novas famílias queriam se inscrever para a ocupação, mas não havia mais terrenos disponíveis.
Embora todas as famílias permanecessem em barracos de lona, a Folha obteve informação que pelo menos seis já encomendaram casas pré-fabricadas para montá-las no local. Até a tarde de ontem não havia informação sobre algum pedido de reintegração de posse. A única reação partiu da associações de moradores do Jardim Gramado e do Parque São Miguel. Em nota que distribuíram ontem à tarde, as entidades afirmam que antes das invasões, a paz a tranquilidade e a ordem reinavam, mas agora os moradores convivem com a insegurança.
As associações denunciam que já ocorreram tiros e pequenos furtos, mas não acusam diretamente os sem-teto. A acusação mais contundente é de que parte dos invasores são profissionais liberais e empresários, que possuem moradias, sítios, caminhões e carros de luxo. Alguns carros foram vistos estacionados no local, mas não há comprovação de que pertençam aos ocupantes. As associações dizem ainda que há preocupação com o padrão das casas que possam ser construídas pelos invasores, porque poderia resultar em prejuízos, com a depreciação das residências atuais.
Sílvio Gonçalves assegura que será feita uma triagem das famílias, para que permaneçam apenas as que precisam de teto. Outro coordenador, identificado como Joaquim Júnior, disse que a organização interna do movimento procura coibir irregularidades. Sobre a denúncia de tiros e pequenos furtos, disse que é assunto para a polícia. Como o Movimento dos Sem-Teto não existe legalmente, qualquer responsabilização por atos, ou ordem de reintegração de posse, terá que ser individual contra os ocupantes dos terrenos. Por isso, a maior parte deles evita se identificar.


