Sem-teto invadem área em Londrina
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domingo, 16 de agosto de 1998
Telma Elorza 
Dorico da SilvaPrecariedadeOntem à tarde já havia mais de 80 barracos montados; famílias são de vários bairros da cidadeCerca de 150 famílias sem-teto invadiram, neste final de semana, um lote de cinco alqueires na Gleba Ribeirão Cafezal, ao lado do Jardim Olímpico, zona sul de Londrina. As famílias começaram a chegar ao local na sexta-feira à noite e no domingo à tarde já haviam armado mais de 80 barracos. O proprietário da área, Carlos Rogério Franchello, registrou queixa na Polícia Civil ainda no sábado pela manhã.
As famílias invasoras são procedentes de vários bairros de Londrina. Segundo Nelson Coutinho, um dos invasores e membro de uma comissão informal encarregada da distribuição dos lotes, a invasão não foi planejada. Ninguém organizou isto. Não temos um líder. Quem decidiu invadir foi o povo, que não aguentava mais pagar aluguel, justificou. O pessoal foi chegando na sexta-feira e um foi falando para o outro.
Olinda e o marido Vicente com os netosA comissão de distribuição de lotes foi formada, segundo Coutinho, para evitar bagunça, especuladores e que o local vire favela. Nós estamos fazendo a divisão certinha dos lotes, com 200 metros cada, deixando espaço para ruas, tudo direitinho. E hoje (ontem) à noite, vamos passar de barraco em barraco. Quem não estiver instalado com a família, vai ter que sair, garantiu. Coutinho está ali com a mulher e dois filhos, uma menina de três anos e um bebê de apenas três meses.
Um segundo membro da comissão, conhecido apenas por Zequinha e que não quis se identificar, disse que todas as famílias invasoras foram registradas em um caderno. Nós não queremos bagunça, nem bebedeira aqui. É tudo gente honesta. A maioria está desempregada e tem até gente passando fome, mas nós estamos ajudando, garantiu.
Nem Zequinha nem Nelson Coutinho sabiam que o terreno era de particulares. A gente ouviu dizer que era da Cohab. Amanhã (hoje), vamos falar com o pessoal de lá para ver se chegamos a um acordo. Esta gente toda precisa de um lugar para ficar, diz Coutinho. Segundo ele, o terreno é bem grande e pode acomodar tranquilamente cerca de 300 famílias. Nós queremos que venha mais gente para cá. Tem muita gente na mesma situação que nós e, juntos, temos mais força para brigar, afirma Zequinha.
A dona de casa Olinda Maria da Silva Fernandes, 62 anos, disse que não teve opção senão invadir. Ela e o marido Vicente Fernando, de 67 anos, moravam com uma filha e dois netos em um barraco de dois quartos no Jardim Sabará (zona oeste), pelo qual pagavam R$ 150,00 de aluguel. O aluguel estava muito caro. Meu velho recebe R$ 220,00 como guarda, mais uns trocados que minha filha consegue como diarista, não dava para viver, pagar água, luz. E a gente come o quê?, indagou. O casal e a filha construíram o barraco de um cômodo durante o domingo. A gente conseguiu umas tábuas e umas telhas e, por enquanto, tá bom. Mais pra frente vamos fazer uma casinha ajeitadinha, sonha seo Vicente.
José Aparecido constrói barraco para a mãeJá o metalúrgico José Aparecido estava construindo um barraco para a mãe morar. Eu fiquei sabendo da invasão e vim correndo garantir um pedacinho de terra para ela, conta. Morador do assentamento vizinho ao terreno, Aparecido disse que assim que tiver terminado a mãe se muda para lá. Se eu terminar hoje (ontem), ela vem hoje. Mas estou com dificuldades de arrumar material. Até desmanchei um pedaço da minha casa para usar o material aqui, afirmou. Segundo ele, a mãe está morando com uma filha, mas a casa é pequena. Lá mal dá para minha irmã e o marido. E a minha mãe quer ter o seu canto, explicou.
Segundo Carlos Franchello, pai do proprietário do terreno, seu filho já registrou queixa na polícia e hoje deve entrar com um pedido de reintegração de posse no Fórum de Londrina. Lá tinha cinco alqueires com plantação de soja que já foi perdida. Além disso, o terreno faz parte de um loteamento que meu filho está iniciando, explicou. Segundo ele, não vai ter acordo de nenhum tipo com os invasores ou com a Cohab. A maioria dos invasores ali é formada por oportunistas que se dizem prejudicados pela sorte. E que, na primeira oportunidade, trocam o terreno por um rádio ou uma bicicleta.
Para o diretor técnico da Cohab, Heleno Solano Rabello, a princípio, o órgão não pode fazer nada em relação à invasão. Como se trata de terreno particular é o proprietário que precisa tomar as providências. Nós não podemos passar por cima disso, explicou. Segundo ele, somente hoje é que a Cohab vai analisar a situação e procurar alternativas para os invasores. Nós ainda não nos inteiramos direito do caso e só vamos poder tomar pé da situação amanhã (hoje). Mas, neste primeiro momento, não podemos fazer nada.


