As cerca de 100 famílias de sem-teto que ainda vivem nas calçadas da Rua Theodoro Locker, no bairro da Fazendinha, em Curitiba, fecharam o acesso à rua com pneus, arames e pedaços de pau: carros e motos estão proibidos de passar.
As famílias moram em cerca de 60 barracos improvisados na calçada depois que uma ordem judicial determinou que o terreno invadido pelos moradores fosse devolvido aos donos, a Varuna Empreendimentos. A reintegração de posse ocorreu em 23 de outubro. As primeiras famílias invadiram o terreno, que pertence à empresa privada, no início de setembro deste ano. Desde de então, lutam por um local onde possam viver.
O novo capítulo da história que vem se arrastando há quase três meses aconteceu no dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Os moradores fecharam a rua às 15 horas do dia 24 com a intenção de preparar a ceia de Natal da comunidade, no meio da via. De acordo com os moradores, a rua seria aberta no dia seguinte. A decisão de manter a passagem fechada por tempo indeterminado veio depois que quatro policiais militares em duas viaturas teriam derrubado as barreiras e desmontado um espaço onde crianças brincavam na rua, colocando as vidas dos menores em risco. A versão é dos moradores.
De acordo com o major da Polícia Militar (PM) Antônio Zanatta, a situação descrita pelos sem-teto não foi confirmada dentro da PM. O major afirma que verificou o ocorrido no Comando do Policiamento da Capital e até o momento não confirma a informação. "Se algum policial se envolveu em uma situação de desvio de conduta, vamos investigar", garante o major. Segundo ele, a PM faz o patrulhamento da região, mas não tem contato com os moradores.
Já a assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Curitiba informou que um decisão, pela desocupação da área, tomada pelo desembargador Fernando Vidal de Oliveira, do Tribunal do Justiça do Paraná, determina que o juiz responsável pela 4º Vara da Fazenda Pública tome medidas para resolver a situação. Entre essas medidas está a determinação de que as famílias que vivem nas calçadas recebam do governo municipal um atendimento adequado, garantindo novo abrigo ou passagens para que retornem aos antigos lares ou cidades de origem. Nos dois casos, o objetivo é que os sem-teto sejam retirados do local.
O despacho do desembargador afirma que a situação "está a causar problema de ordem social no local, face à constatação de pontos de traficantes e prostituição, conforme relatório elaborado pela Secretaria Municipal de Defesa Social" e por isso pede uma solução rápida para o problema.
A retirada não tem data para acontecer e só deve ser feita pela Polícia Militar depois da determinação judicial. Enquanto a situação não se resolve, a rua deve ficar fechada. É o que promete Irene Rosa Barbosa, espécie de porta-voz dos sem-teto. Junto com outros moradores, ela diz que vai resistir e garante: a rua não será aberta até que uma nova assembléia dentro do acampamento determine isso. "Aqui é o nosso condomínio fechado. Só entra quem a gente quer. Se a calçada é nossa casa, a rua é o quintal para nossos filhos brincarem", diz.
Motoristas acostumados a trafegar pela Rua Theodoro Locker estão desviando o caminho. É o caso do motoboy Paulo César Uesler, que trabalha com entregas de uma empresa de Recursos Humanos. Uesler diz que passa pela rua pelo menos uma vez por dia. Com ela bloqueada, tem de fazer um desvio que resulta em 15 minutos a mais de percurso. "Prejudica bastante, pois é a rua por onde corto caminho", conta. Mesmo assim, ele não critica a atitude dos sem-teto. "É uma vergonha o governo não fazer nada por esse povo", emenda.

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