Sem-teto fecham a rua e exigem água
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quarta-feira, 14 de maio de 1997
Célia Baroni 
Josoé de CarvalhoPassagem impedidaFamílias que invadiram fundo de vale fecharam a avenida durante toda a tarde: carros que tentaram passar tiveram que retornarBarricadas com galhos, pedras e entulhos impediram o trânsito de automóveis pelas duas pistas da avenida Winston Churchill, durante toda a tarde de ontem. As barreiras foram erguidas pelos sem-teto que ocuparam irregularmente o jardim Aldamas, área de fundo de vale entre o parque Ouro Verde e o conjunto Parigot de Souza (zona norte), há um mês e meio. Eles querem que a Sanepar coloque um cavalete comunitário, garantindo o abastecimento de água para as 42 famílias que estão morando no local.
O protesto reuniu cerca de 50 pessoas, principalmente mulheres e crianças, todos decididos a não deixar ninguém passar pelo bloqueio armado logo após a lombada eletrônica da avenida, na altura da entrada do morro da Formiga.
A Polícia Militar chegou a montar uma operação para bloquear o tráfego, há 200 metros do bloqueio, para evitar conflito entre os manifestantes e motoristas.
Mesmo assim alguns carros tentaram passar pela barreira e foram obrigados a retornar. Enquanto não tiver nenhuma solução para o nosso problema, não passa ninguém, diziam os manifestantes. Estamos cansados de ser empurrados de um lado para o outro, sem conseguir solução. Enquanto isso nossas crianças estão ficando doentes porque somos obrigados a usar água contaminada, denuncia Rosemeire da Silva, 19 anos, membro da comissão de famílias que invadiram a área. Ela explica que a comissão procurou os órgãos públicos em busca de uma solução - sem sucesso. Fomos à Prefeitura, que nos mandou para a Cohab, que disse para a gente procurar a Sanepar. E a Sanepar mandou a gente de volta para a Prefeitura, conta a sem-teto.
Rosemeire diz que nos vários órgãos a alegação é sempre a mesma: não podem atender o pedido porque a invasão é em fundo de vale. Mas todas as outras ocupações em fundo de vale conseguiram o cavalete, porque a gente não? Se morar em fundo de vale é irregular, porque eles não cortam a água das mansões à beira do lago Igapó? Lá também é fundo de vale, questiona.
Uma técnica da Prefeitura esteve fazendo análise da água e constatou que ela está contaminada, afirma Rosemeire. Segundo ela, a única fonte de água do fundo de vale é uma mina, que é utilizada para tudo. Recentemente, dizem os moradores, crianças e adultos começaram a sofrer de diarréia e vômito.
A filha de quatro anos da dona-de-casa Maria Aparecida Teixeira ficou internada dois dias no Hospital Universitário com aqueles sintomas. Antes de ocuparem o fundo de Vale, ela, o marido e os dois filhos pagavam aluguel no conjunto Semíramis Braga (zona norte). Os cinco filhos de Beatriz da Silva, 43 anos, também tiveram crises de diarréia, depois que começaram a beber a água da mina.
O superintendente regional da Sanepar, Paulo Kishima, avisou ontem que não tem autonomia para atender o pedido. Ele explica que o fato das famílias ocuparem uma área de fundo de vale complica ainda mais a situação, porque não há como justificar legalmente o atendimento. Precisamos de um pedido oficial da Prefeitura ou Cohab.
Kishima afirma que as invasões irregulares colocam a Sanepar entre a cruz e a espada. Não podemos deixar estas pessoas sem água, mas também não podemos compactuar com um ato ilegal. Kishima acrescenta ainda que a região norte é um ponto crítico para a Sanepar e que até um cavalete comunitário poderia resultar em prejuízo no abastecimento de outros bairros.


