Sem-teto denunciam despejo violento
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de março de 1997
Marccio W. Varella Sucursal de Maringá 
Edson GuittiRevoltaFamílias de sem-teto em frente às casas da antiga RFFSA: seguranças não tinham mandado judicialDez famílias de sem-teto de Sarandi, a 7 quilômetros de Maringá, acusam cinco guardas da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) de usar brutalidade para retirá-los de dez casas que pertenciam à RFFSA. A desocupação ocorreu anteontem. Na noite do mesmo dia, os sem-teto voltaram a ocupar as instalações.
As casas, construídas há mais de 30 anos e abandonadas, estão sendo incorporadas ao patrimônio da Ferrovia Sul Atlântico, que comprou a concessão da Rede para operar a Malha Sul do País.
As famílias, com cerca de 60 pessoas, invadiram as casas segunda-feira. A maioria está desempregada. José Moya, que foi criado numa dessas casas quando seu pai, ex-funcionário da Rede, ainda era vivo, diz que às 15 horas de terça-feira os guardas uniformizadas da RFFSA, desarmados, entraram nas casas e jogaram móveis e utensílios dos invasores na rua.
Nos deram pescoções, não tinham mandado judicial, não se identificaram e ainda jogaram uma menina de dois anos de idade com colchão e tudo no meio da rua. A mãe da menina, Valdelice Moreira, 22 anos, que amamenta um bebê de um mês de idade, confirma que sua filha Milena foi jogada na rua como um saco de batatas.
O borracheiro desempregado Lindivaldo Carlos da Mota, 33 anos, a mulher dele, Silvana, e três filhos também tiveram roupas e utensílios domésticos atirados na rua. Pensei que estivesse sendo preso. Não tenho onde morar. Na casa da minha sogra não tem lugar para mais ninguém.
Os sem-teto prometem voltar para as casas em caso de nova desocupação. Voltaremos quantas vezes for preciso. Isso não é provocação, não. É falta de moradia mesmo, afirmou Moya.
O engenheiro-chefe da RFFSA Alcenir da Silva Godói não foi encontrado pela Folha. Ele estaria viajando. O chefe da segurança da Rede não quis falar sobre o assunto e nem se identificou.
O secretário de Administração de Sarandi, Alcides Ferreira, diz que a prefeitura não foi avisada sobre a desocupação das casas. Ele informa que existe hoje em Sarandi um déficit habitacional de cerca de duas mil moradias.
Não sabemos do número exato porque chegam diariamente a Sarandi uma média de 70 pessoas do Paraná e até de outros estados, afirma Ferreira. Segundo ele, a cidade tem 17 mil residências e não pára de crescer. O último censo do IBGE constatou que Sarandi tem 60 mil habitantes. Isso não é verdade. Hoje temos seguramente mais de 90 mil habitantes.


