Sem-teto deixam fundo de vale e ocupam área da Codel
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quarta-feira, 15 de outubro de 1997
Osmani Costa Londrina 
Josoé de CarvalhoResistênciaDirciléia Leonel: Aqui temos parentes, amigos, crianças em creches, nossos empregos A assessoria jurídica da Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel) deu entrada, ontem, na Justiça com um pedido de liminar para a reintegração de posse de um terreno de 15 alqueires que foi invadido por dezenas de famílias de sem-teto no último final de semana. O terreno da Codel - formado por pastagem e mato rasteiro - fica fora da Cidade, ao lado do conjunto habitacional Newton Guimarães (zona Norte).
A ocupação da área teve início na madrugada de sábado, com a chegada de 21 famílias que estavam sendo despejadas do fundo de vale do também vizinho conjunto habitacional José Giordano. A Cohab tentou, nas últimas semanas, transferir estas famílias para o assentamento Olímpico 2, na divisa de Londrina com Cambé (zona oeste). Elas não concordaram com a transferência para um lugar distante da zona norte.
Pelo mesmo motivo, outras 45 famílias foram para o terreno da Codel vindas do fundo de vale do conjunto habitacional José Belinati, também na zona norte. Na tarde de ontem, outras famílias continuavam chegando. Homens, mulheres e crianças trabalhavam na divisão dos lotes - de 10 por 20 metros -, na limpeza do solo e na construção dos barracos de madeira e lona. O terreno fica a mais de 500 metros do Newton Guimarães e não conta com água encanada, energia elétrica e esgoto.
Funcionários da Codel e da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab) estiveram no local, nos últimos dias, mas não abriram a negociação esperada pelos sem-teto. Para o Olímpico não vamos, porque lá não tem condições de a gente viver bem. É muito longe daqui, onde temos parentes, amigos, crianças em creches, nas escolas e os nossos empregos, comenta a diarista Dirciléia Leonel, uma das líderes da ocupação.
Segundo ela, todas as famílias que participam da invasão residem há muitos anos em conjuntos da zona norte e não têm mais condições de pagar aluguel. A vida está dura para nós, que somos pobres. Tem muita gente desempregada. E quem tem emprego ou faz bicos ganha salários baixos, explica a diarista. A Cohab e a Prefeitura forçaram a gente a sair do fundo do vale. Agora, daqui a gente só sai para um lugar melhor e definitivo. Podemos pagar parcelado o valor do terreno, mas exigimos que seja aqui perto dos Cinco Conjuntos, onde temos toda a nossa vida estruturada.
O presidente da Codel e vice-prefeito, Alex Canziani (PTB), diz que não há qualquer possibilidade de as famílias de sem-teto permanecerem definitivamente no terreno invadido. Já pedimos a reintegração de posse. Assim que ela for concedida pela Justiça, vamos negociar uma retirada pacífica das pessoas da área. É uma das poucas áreas que a Codel possui para negociar a vinda de indústrias e não abriremos mão dela, ressalta.
Segundo ele, o compromisso maior da atual administração municipal é com a geração de empregos e, para atrair indústrias e alcançar este objetivo, a Codel necessita oferecer algo em troca para os empresários. Estamos em processo de negociação com várias empresas. Não podemos, de repente, perder a vinda de uma ou mais indústrias para Londrina porque o nosso terreno está ocupado, apesar de termos consciência de que elas são formadas por trabalhadores honestos e que passam por necessidades, comenta.
O presidente da Federação de Moradores em Favelas e Assentamentos de Londrina, José Ricardo da Silva, esteve ontem na área invadida dando apoio às famílias. Ele se disse muito preocupado com o aumento do número de invasões de terrenos particulares, públicos e fundos de vales ocorridas nos últimos meses. A situação está fora de controle e é muito séria. Prefeitura, Cohab, Câmara precisam se reunir e encontrar soluções urgentes. Nós estamos abertos à negociação.


