''Sem-terrinha'' seguem vida nômade de pais
Sem-terrinha
seguem vida
nômade de pais
Kraw PenasNo quartoG.D., de sete anos, curte seu quarto cheio de brinquedos. Alguns ele mesmo ajudou a comprar com o dinheiro de seu trabalho como ator mirimMauro FrassonNo acampamentoM.S., de três anos, assim como outras 40 crianças, passa o dia distraindo-se com brinquedos doados no acampamento dos sem-terra em CuritibaJ., 6 anos, S. e L. com 5, e os irmãos F., de 3, e F., de 5, estão acampadas com os pais na cidade de lona montada pelos agricultores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em frente ao Palácio Iguaçu, em Curitiba. Vindas de regiões diferentes do Estado, passam os dias brincando, com os pés descalços ou usando chinelos-de-dedo e vestem-se com roupas puídas. Vivem como a maioria das 40 crianças que estão em Curitiba e as outras 60 mil em idade escolar, segundo cálculos do MST, que estão em outros assentamentos e acampamentos do Paraná. Em Curitiba eles passaram o fim de semana um pouco diferente, já que ganharam carrinhos de plástico da Pastoral da Criança.
Brinquedos e outras mordomias, aliás, jamais fizeram parte da vida dessas crianças. Se acostumaram à vida mambembe dos pais, morando em precários barracos de lona ou em pequenas e simples casas de madeira onde o maior luxo é a luz elétrica. Eu tinha um carrinho mas deixei lá em casa, conta S., que trocou o acampamento Sete Mil, na Região Centro-Oeste, por Curitiba desde o primeiro dia que o MST se instalou na capital.
Sempre tímidos e pouco confiantes, todos contaram que gostam de morar no acampamento curitibano. Além de brincar, S. e L. frequentam a escola montada precariamente no edifício abandonado do Fórum. Ali, uma professora é responsável pelas aulas da 1ª a 4ª séries e as criança menores são atendidas pela ciranda infantil, que funciona como uma creche. L. afirma que ainda não sabe o que quer fazer quando crescer. S. concorda com ele.
Brinquedos alternativos F. é o mais falante e alegre entre as cinco crianças. O acampamento do Centro Cívico completa hoje 127 dias e ele tem alterado períodos de permanência com os pais e o irmão aqui, e num acampamento perto da Lapa (71 km a oeste de Curitiba). Lá, conta a mãe de F., os dois irmãos gostam muito de acompanhar o trabalho dos pais na roça. Brincam a maior parte do dia, já que ainda não vão à escola. F. não gosta de futebol. Prefere brincar com o carrinho de pedais. O pai consertou o volante com um cabide de fumo, diverte-se.
Para responder a qualquer pergunta, todos eles falam ao mesmo tempo e não largam por nenhum instante os presentes que ganharam. F. lembra do começo da instalação das barracas do Centro Cívico, quando não tinha chuveiro nem luz. O irmão menor recorda os caminhões de madeira que o Adriano fazia no acampamento da Lapa. Bem grandes, com rodas de pau, completa F., abrindo os pequenos braços para dimensionar o tamanho do brinquedo.
Branquinho e Baio podem não ser páreo para o cachorro boxer de G.D., mas F. fala deles com saudades. Do cavalo Negão, que é muito manso, ele detalha o andar de lado quando alguém o está montando. Outro passatempo preferido do garoto é passear de carroça, quando Negão ganha a companhia de Potranca, e o avô assume as rédeas na estrada que liga o acampamento até a Lapa. Perguntado se sabe por que os pais vivem assim, F. não titubeia: pra gente ter onde morar. Ontem, F. deixou o acampamento de Curitiba e voltou para a região da Lapa. A mãe, que continua na cidade, contou que o filho mais velho não aguentou a saudade do pai.





