Sem-terra que se concentraram em frente a Prefeitura de Ibema (53 km a leste de Cascavel) na manhã de anteontem, exigindo reunião com o prefeito Adelar Arrosi (PDT) e representantes do Incra, deixaram o local à noite, após compromisso do prefeito de receber uma comissão, o que aconteceu ontem. Os 400 sem-terra retornaram ao acampamento à margem da BR-277, que serve como ‘‘concentração’’ para 600 famílias.
A partir dali, eles devem ocupar fazendas da região, caso não sejam assentados pelo Incra.
Dali saiu em abril de 96 parte das três mil famílias que ocuparam a fazenda Pinhal Ralo (hoje Assentamento Ireno Alves dos Santos), no vizinho município de Rio Bonito do Iguaçu, na maior ação até hoje organizada pelo Movimento dos Sem-Terra no País. ‘‘Não dá para segurar o pessoal muito tempo à beira da estrada, sem trabalho e passando fome e doença’’, disse ontem o coordenador do acampamento, Márcio Reisner.
O coordenador confirma que o local serve como ‘‘concentração’’ das famílias, tanto para a hipótese do Incra viabilizar assentamento, quanto para, em caso contrário, ‘‘ocupar fazendas improdutivas que existem por aqui’’. O prefeito Adelar Arrosi (PDT) mandou suspender o expediente na prefeitura segunda-feira, antes da chegada dos sem-terra e, segundo informação obtida em sua casa, havia viajado.
Na verdade, ele estava abrigado no destacamento da Polícia Militar, alegando que havia recebido ameaça de sequestro pelos sem-terra, que exigem atendimento nas áreas de saúde e educação.
O prefeito é acusado pelo presidente da associação comercial da cidade, Elói Bodanese, de ter ‘‘espalhado boatos de que eles (sem-terra) viriam aqui para saquear o comércio’’. ‘‘Nunca tivenos problemas com os sem-terra, e um assentamento existente no município, com 96 famílias, alimenta o comércio’’, justificou Bodanese.
Ontem, Adelar Arrosi confirmou à Folha as ameaças de saque e de sequestro, sobre as quais teria tomado conhecimento ‘‘através de gente do acampamento’’. Sobre a acusação do líder empresarial, disse que Bodanese ‘‘fala apenas como adversário político’’ - por ser presidente do PMDB local - ‘‘mas não tem nenhuma representatividade’’. Durante a reunião de ontem com representantes dos sem-terra, o prefeito telefonou para a Superintendência no Incra do Paraná, abrindo conversações sobre reassentamento, mas disse que reivindicações à prefeitura ‘‘são absolutamente impossíveis de serem atendidas’’. Os sem-terra querem transporte para crianças frequentarem escolas municipais, ou um monitor no próprio acampamento, e acesso aos postos de Saúde.
‘‘Não temos como atender sequer a população do próprio município’’, alegou o prefeito. O único compromisso assumido por ele foi pagar o frete de caminhões usados no transporte de alimentos vindos de outros assentamentos da região para o da BR-277. O secretário de Finanças, Osmar Daga, observou que Ibema tem 6,7 mil habitantes, e só os sem-terra são mais 2,5 mil. ‘‘Não sobram recursos para muita coisa’’, porque a receita mensal da prefeitura é de R$ 100 mil, oriunda de tributos basicamente do comércio, agricultura e algumas madeireiras.

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