O perfil fundiário e populacional de vários municípios paranaenses está sendo alterado com acampamentos e assentamentos de sem-terra, e a divisão de latifúndios em pequenas propriedades. O novo perfil está detalhado num documento e num mapa do Estado, apresentados na noite de anteontem pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), com colaboração de órgãos públicos e entidades dos trabalhadores. É o primeiro estudo coletivo sobre a questão. Em 268 locais, o contingente de sem-terra envolvido nas alterações fundiárias é superior a 16,6 mil famílias.
O documento ‘‘Paraná - Acampamentos e Assentamentos 1998’’ e o mapa foram apresentados em Marechal Cândido Rondon (90 quilômetros a oeste de Cascavel), em cujo câmpus a Unioeste oferece o curso de geografia que é responsável pelo projeto, apoiado pela pró-reitoria de extensão e assuntos comunitários. Segundo o professor Mário Cândido de Athayde Júnior, coordenador da pró-reitoria, trata-se de uma contribuição para que o meio acadêmico e a sociedade discutam a questão fundiária.
O coordenador do projeto, professor João Edmilson Fabrini, do departamento de geografia, é do Mato Grosso do Sul, onde estudou a questão fundiária. Fabrini contou com a colaboração do Incra, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Iguaçu (Crabi) para levantar informações, além do trabalho de campo. O MST, diz Fabrini, ‘‘é uma manifestação da sociedade organizada’’ objetivando ‘‘modificar a ordem estabelecida no campo’’, mas com reflexos ‘‘na sociedade urbana’’.
No Estado, as origens do MST estão no início dos anos 80, no ‘‘Movimento Justiça e Paz’’ da Comissão Pastoral da Terra, e no Movimento dos Agricultores Sem Terra do Oeste do Paraná, que lutavam por justa indenização às terras desapropriadas para a formação do reservatório da usina de Itaipu, no Rio Paraná. As primeiras ocupações de terra ocorreram em 83 no Sudoeste. Em 85, foi realizado em Curitiba o I Congresso Nacional do MST e, em 96, ocorreu a maior ocupação do País. A Fazenda Giacomet-Marodin (hoje Assentamento Ireno Alves dos Santos) foi invadida por 12 mil sem-terra, em Rio Bonito do Iguaçu (125 km a oeste de Guarapuava).
A territorialização das ocupações deslocou seu centro nos últimos anos para o Noroeste, principalmente na região de Querência do Norte. Atualmente, segundo o estudo, há em todo o estado 7.516 famílias em 105 acampamentos, e 8.199 em 145 assentamentos, com área de 178 mil hectares. Somando-se reassentamentos de famílias que tiveram terras alagadas por reservatórios, são 204,6 mil hectares.
Segundo o professor Mário Cândido de Athayde Júnior, o mapa e o documento ‘‘Paraná - Acampamentos e Assentamentos 1998’’ foram elaborados com a proposta de serem colocados como ‘‘um tertius’’ - posição intermediária - entre informações oficiais (Incra) e do movimento social (MST), por isso sua validade para a pesquisa. O material, impresso na gráfica da Unioeste, será inicialmente utilizado pela universidade e em escolas do ensino fundamental para atividades didáticas.

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