Sem-terra têm até 4ª para deixar área
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quarta-feira, 23 de abril de 1997
Luciane Tonon Correspondente 
Sem comidaAs famílias de sem-terra acampadas na beira da estrada, em Ribeirão do Pinhal, reclamam da falta de alimentos RIBEIRÃO DO PINHAL - Termina na próxima quarta-feira o prazo pedido pelo Incra para assentar as 62 famílias de sem-terra que ocuparam a fazenda Santa Maria em Ribeirão do Pinhal (56 quilômetros a oeste de Jacarezinho) em novembro de 96. Há cinco meses eles aguardam uma decisão, acampados na beira da estrada na entrada da fazenda.
Segundo os sem-terra, o grupo atendeu a solicitação do Incra para se retirar da área que havia sido considerada produtiva. Aceitamos o acordo de sair numa boa e acreditamos na promessa do Incra que teria uma solução, mas agora nem temos mais como esperar, explicou o líder dos acampados, Odair Macota. Ele disse que as famílias já estão passando fome por falta de serviço. A última cesta básica veio no dia 11 de março, ainda com o feijão todo estragado, afirmou Macota.
A cesta básica doada às famílias é composta por 10 quilos de arroz, 5 quilos de farinha de mandioca, 5 quilos de farinha de milho e feijão. Se colocar um prego junto com o feijão, cozinha o prego e não o feijão, ironizou Valdemir dos Santos.
A preocupação maior das famílias é que em 30 de abril vence também o prazo dado pelos proprietários da fazenda permitindo que eles ficassem ali. Vai começar a colheita de cana e não temos mais como ficar na beira da estrada com as crianças correndo risco de serem atropeladas pelos caminhões, reclamou o sem-terra Nelson Ferreira Rocha.
Luciane TononInútilA última cesta básica foi fornecida em março; o feijão veio estragado
A opção para a sobrevivência do grupo está sendo a pesca, mas o rio em que pescam está contaminado. Outro dia um dos acampados foi hospitalizado após tomar um banho no rio, contou o líder do acampamento. Sem contar que as crianças diariamente ficam doentes.
A Fazenda Santa Maria tem 292 alqueires, sendo 160 de plantação de cana, 80 de mata e o restante de pasto. Além disso, a fazenda é sede de uma fábrica de cachaça com capacidade de produção de 4 milhões de litros por safra, oferecendo 160 empregos.
Os sem-terra decidiram ocupar a área em virtude de um processo judiciário sobre recisão de contrato entre proprietário e arrendatários, mas de acordo com a juíza de Riberião do Pinhal, Telma Regina Magalhães de Carvalho, isso não significa que as terras estejam livres para ocupação.
As famílias acampadas na fazenda Santa Maria estão desamparadas até mesmo pelo Movimento Sem-Terra (MST). Nenhum deles quis comentar a respeito, mas o abandono vem desde que a área foi considerada produtiva pelo Incra.
O proprietário da fazenda, Chepli Daher, diz que vai cumprir o trato. Esgotado o tempo de espera, todas as partes vão ter que cumprir o acordo , disse. Segundo ele, até o momento houve aturação com as famílias porque sabiam que foram induzidos a uma invasão ilegal. Muitos estão ali e nem sabem o porquê, afirmou Daher.
Ele disse que com o início da colheita de cana, a permanência dos sem-terra é impossível. Primeiro pela queimada dos canaviais e depois pelo tráfego de caminhões no local. E nós não podemos atrasar a colheita em função de um trato não cumprido , argumentou.
A superintendente do Incra, Maria Oliveira, não foi encontrada para prestar esclarecimento, mas no último contato com os acampados ela afirmou que iria cumprir o prazo e solucionar o caso.


