Nove trabalhadores sem terra foram presos na madrugada de domingo em Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí), quando saíam da Fazenda Florão. Eles são acusados de crime de receptação ou furto de gado da fazenda. No momento da prisão, os sem-terra estavam transportando cerca de 30 quilos de carne temperada com sal, embalada em um saco plástico. Eles foram transferidos para a delegacia de Paranavaí.
A prisão foi feita por policiais do Grupo de Operações Especiais (GOE), do 8º Batalhão da Polícia Militar de Paranavaí. Os sem-terra estavam em uma perua Kombi quando foram abordados pelos policiais. A carne, sem nota fiscal, foi apreendida e encaminhada para a delegacia de Querência do Norte, onde foi aberto inquérito.
De acordo com Clodoaldo Natal França, 25 anos, a carne que estava sendo transportada foi oferecida pelas famílias que estão na Fazenda Florão. Eles disseram ontem à Folha que haviam sido recrutados pela coordenação do Movimento Nacional dos Trabalhores Sem Terra (MST) para fazer a segurança da Fazenda Florão no final de semana.
Eles afirmam que fazem parte do grupo de famílias que ocupou a Fazenda Santa Ana, também em Querência do Norte, distante cerca de 30 quilômetros da Fazenda Florão. ‘‘Fomos para a Fazenda Florão porque o movimento pediu reforço. Havia suspeita de que a polícia iria tirar as famílias da Fazenda Florão à força’’, disse Antônio Aureliano da Costa, 42 anos.
Costa e os demais sem-terra presos anteontem disseram que chegaram na Fazenda Florão na sexta-feira à noite. ‘‘Ficamos até meia-noite de sábado trabalhando na segurança da fazenda e depois fomos embora porque tinha acabado o nosso turno’’, alegou Costa. Nenhum dos sem-terra preso soube informar a procedência da carne e os nomes dos líderes que estavam na Fazenda Florão. Eles negaram que tivessem abatido animais da fazenda.
‘‘Durante o dia, nós comemos carne no acampamento e como havia sobrado um pouco eles ofereceram para a gente levar para as nossas famílias que estão na fazenda Santa Ana’’, afirmou França.
Os presos foram transferidos para Paranavaí por precaução. Eles ocupam duas celas isoladas dos demais presos. De acordo com a assessoria da Secretaria Estadual do MST, em Curitiba, a prisão só foi comunicada ontem de manhã e alguns advogados já haviam sido procurados para entrar com recurso. Estão presos, além de Costa e França, José Aparecido da Silva, 24 anos, Plácido Schwartz, 65, Carlos Anunciada dos Santos, 27, Ezequel Stenel, 35, Ednaldo Francisco Rodrigues, 25, Ednaldo Gomes de Aguiar, 19, e Valcir Luiz Ferreira, 18 anos.
A Fazenda Florão tem 175 alqueires e foi invadida no dia 24 de junho por cerca de 40 pessoas. A área pertence à família de Lúcia Roveri Ártico, pioneira em Colorado (85 km ao norte de Maringá). Os sem-terra invadiram a fazenda e renderam uma família que trabalha na sede. De acordo com Cláudio Ártico, filho da proprietária, a área tem interdito proibitório desde 1995 e parecer do Incra afirmando que o órgão não tem interesse na propriedade para fins de reforma agrária. Ele diz que os sem-terra roubaram 92 cabeças de gado da fazenda.

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