Sem-terra reúnem 4 mil pessoas na Boca Maldita
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quarta-feira, 22 de outubro de 1997
Lorena Aubrift Klenk 
Curitiba
Kraw PenasPrimeira paradaPM estima que 2,5 mil pessoas tenham se reunido em frente à Catedral ontem de manhã para pedir reforma agráriaA libertação dos líderes Celso Anghinoni e Delfino José Becker animou a manifestação puxada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) ontem em Curitiba, com a participação de políticos e representantes de sindicatos e movimentos sociais. No ponto alto do dia, às 16 horas, cerca de 4 mil pessoas (segundo cálculo da Polícia Militar) reuniram-se na Boca Maldita para pedir reforma agrária, emprego e saúde. O ato encerrou a marcha dos sem-terra, que percorreu 650 quilômetros desde Querência do Norte, de onde saiu dia 23 de setembro.
A libertação dos dois companheiros e o anúncio de mais seis áreas desapropriadas pelo Incra terça-feira são resultado do sucesso da marcha, que foi decisiva para que as negociações avançassem, avaliou Roberto Baggio, da coordenação estadual do MST. Vamos continuar pressionando para que se faça justiça e reforma agrária no Paraná, disse.
Os cerca de 600 sem-terra que participaram da marcha chegaram ao Parque Barigui, na entrada de Curitiba, por volta das 8h30. Lá, já eram esperados por sindicalistas, políticos, professores e trabalhadores de várias categorias. Às 10 horas, a passeata - dominada por bandeiras vermelhas do MST e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) - partiu em direção ao centro.
A passeata parou o trânsito e provocou engarrafamentos pelas ruas onde passou. Motoristas tiveram que esperar até 30 minutos para prosseguir. A Polícia Militar colocou cerca de 100 homens do 12º Batalhão e do Batalhão de Polícia de Trânsito para acompanhar os manifestantes, mas não registrou incidentes.
Depois do Barigui, a primeira parada foi em frente à Catedral Basílica. O subcomandante do 12º BPM, major Nemésio Xavier, disse que nesse momento havia cerca de 2,5 mil pessoas reunidas. Os manifestantes estenderam uma grande bandeira do MST na escadaria da igreja e ouviram o arcebispo metropolitano, dom Pedro Fedalto, que citou trechos de documentos eclesiásticos defendendo o acesso à terra para quem quer produzir.
Um dos momentos de maior entusiasmo ocorreu quando o advogado Darci Frigo, da Comissão Pastoral da Terra, anunciou no microfone a notícia da libertação de Anghinoni e Becker. Muita gente também se emocionou quando quatro pessoas anunciadas como parentes dos sem-terra presos entregaram a dom Pedro uma cesta com alimentos produzidos em áreas de assentamentos.
Pouco antes das 14 horas a passeata chegou à praça em frente ao Palácio Iguaçu. Enquanto várias pessoas se revesavam para falar no caminhão de som, em frente a outro caminhão se formava uma fila para receber comida: feijão, arroz, purê de batata e pão. O presidente nacional da CUT, José Vicente da Silva, não perdeu a oportunidade de fazer uma média e entrou na fila para comer.
Mas o ponto alto ocorreu quando a passeata chegou à Boca Maldita. Além das lideranças do MST, participaram do ato Vicentinho, os senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Roberto Requião (PMDB-PR), o presidente nacional do PT, José Dirceu, e o presidente da União Nacional dos Estudantes, Ricardo Capelli. Os discursos foram entremeados por hinos que animaram os sem-terra a sacudir as bandeiras vermelhas e cantar frases como esta: Vamos entrar naquela terra e não vamos sair; nosso lema é ocupar, resistir e produzir.


