Lucinéia Parra

Marcos NegriniSem estrelasBarracos cobertos com lona plástica preta, alojamento dos participantes do encontro estadual do MST A vida sob lona já faz parte da rotina de milhares de pessoas que ingressaram no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Paraná. Nem a elevada temperatura das últimas semanas tira o ânimo dos trabalhadores em lutar por um pedaço de terra. ‘‘Quando se tem um ideal, se esquece do calor e ele passa a ser mais um sacrifício que enfrentamos para conseguir nossos objetivos’’, diz João Ribeiro, 31 anos. Ele, que já foi seminarista, ingressou no MST em 1989. Desde então, não perde os encontros do movimento, que acontecem anualmente, e que têm como objetivo definir as diretrizes do MST e fazer um balanço das atividades dos acampamentos e assentamentos em todo o Estado.
Na semana passada, ao lado de cerca de 900 delegados do MST no Paraná, Ribeiro esteve em Santa Cruz do Monte Castelo (90 km a oeste de Paranavaí) participando do 13º Encontro Estadual do MST. Por volta das 13 horas de sexta-feira, Ribeiro e alguns companheiros do MST estavam sob uma lona preta, onde o calor parecia insuportável. A temperatura era de 35 graus centígrados na sombra e 45 graus sob o sol.
A hora era de folga, já que as palestras do encontro tinham encerrado e os participantes só aguardavam a visita do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Para esquecer o calor, mas não deixar de lado os ideiais, Ribeiro e os amigos ensaiavam algumas músicas do MST tiradas ao som de um violão. Ao lado, no chão forrado com panos, dormiam seus dois filhos. ‘‘As crianças sofrem mais, mas elas entendem que o sacrifício vai valer a pena’’.
‘‘Calor é ruim, é verdade, mas já estou acostumada’’, assegura Enedina Duarte Casada, 38 anos. Ela também participou do encontro e desempenhou tarefa das mais difíceis no acampamento. Junto com outras mulheres, Enedina foi responsável pela comida que era servida diariamente. Todos os dias a partir das 10h30 ela começava a preparar o almoço, ‘‘pilotando’’ o fogão sob o sol e arrumando os ingredientes debaixo da lona. Ela mora no assentamento de Cachoeira, na região de Foz de Iguaçu, e diz que o calor das barracas só é insuportável nos primeiros dias. ‘‘Não é fácil ficar sob a lona, principalmente neste calor danado, mas tenho que pensar no futuro e no pedaço de terra que vou conseguir para sustentar a minha família’’.
A hora do ‘‘refresco’’ nos acampamentos dos trabalhadores sem-terra é mesmo a hora do banho, mas vale também disputar um copo de água distribuída por caminhões pipas. O improviso também ajuda a escapar um pouco do sol. Para almoçar, por exemplo, só mesmo debaixo de uma sombra de árvore. Mas esta ‘‘mordomia’’ também foi disputada no acampamento em Santa Cruz do Monte Castelo, já que a área designada para o encontro é de pastagem e as árvores são raridades.
Apesar de todo calor, os participantes do encontro não reclamaram das condições de hospedagem. A maioria ficou satisfeito com os debates e tinha na ponta da língua as determinações do MST para todo ano de 98. ‘‘O calor e a falta de conforto não é problema porque não temos dúvida do que queremos’’, declarou Luiz Carlos Moraes, 23 anos.

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