Marcos Zanatta
Cerca de 300 sem-terra que participaram do enterro de Sebastião Camargo Filho, 65 anos, retomaram ontem à Fazenda Água da Prata, em Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí). Camargo Filho foi morto com um tiro de escopeta, na madrugada de sábado, durante a desocupação da Fazenda Boa Sorte, em Marilena. O corpo dele foi velado durante toda a noite na sede do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em Querência, e a cerimônia de despedida começou às 11 horas. Depois do enterro, por volta das 13 horas, as mulheres voltaram para o barracão do MST e os homens foram para Água da Prata.
A Fazenda Água da Prata pertence a Wilson Ferreira, tem 446 alqueires e foi ocupada por cerca de 200 famílias de sem-terra em maio do ano passado. O proprietário, Wilson Ferreira, conseguiu a reintegração de posse, mas os sem-terra só deixaram a área no final do ano, depois que o Incra e o governo do Estado garantiram assentar todas as famílias. Parte dos sem-terra que estavam na Água da Prata foram para as fazendas Boa Sorte e Santo Angelo, que foram desocupadas por pistoleiros na madrugada de sábado passado.
Ontem, no final da tarde, o capitão Gilberto Candido dos Santos, comandante da Polícia Militar de Loanda, esperava um representante do Ministério Público para vistoriar a área. Ele disse à Folha que a reocupação da Água da Prata foi pacífica, mas a preocupação é que vários funcionários da fazenda moram na propriedade. Segundo o capitão Gilberto, cerca de 30 policiais da região foram deslocados para acompanhar o velório e o enterro do sem-terra em Querência. ‘‘Mas não tínhamos como prever uma ação deles para reocupar a área ontem’’, garantiu.
A Polícia Civil de Nova Londrina (76 quilômetros de Paranavaí) abriu inquérito para apurar a responsabilidade sobre a ação de desocupação das duas propriedades em Marilena, que deixou um saldo de um morto, dois feridos e cerca de 30 pessoas desaparecidas. O capitão Gilberto informou que a polícia encontrou oito escopetas abandonadas em galpões e casas em uma das fazendas. Ontem, policiais foram até uma propriedade rural de Guairaça, a 50 quilômetros de Nova Londrina, checar informações de que pistoleiros que participaram da desocupação estavam no local escondidos.
Os proprietários das fazendas Boa Sorte, Teissim Tina; e Santo Angelo, Toshio Konda, não foram localizados ontem em Nova Londrina, onde moram. Na residência de Tina ninguém atendeu o telefone, e na de Konda a empregada, que não quis se identificar, disse que toda a família está viajando. Ela alegou não saber onde a família está ou quando retorna de viagem.
O sem-terra Dirceu Cordeiro de Oliveira, 24 anos, que levou dois tiros nas nádegas, está se recuperando. Ele passou por uma cirurgia na Santa Casa de Paranavaí, e ontem seu estado de saúde era regular. Pedro Godói Inglês, que quebrou duas costelas durante a desocupação, também está bem. Ele está internado no Hospital Municipal de Querência do Norte.
Ontem, no final da tarde, apenas 10 mulheres e cerca de 30 crianças estavam na sede do MST em Querência do Norte. Segundo a sem-terra Sandra Mara Alves, que estava acampada na fazenda Boa Sorte, os homens saíram para o enterro e não tinham retornado. Ela não tinha nenhuma informação sobre a reocupação da fazenda Água da Prata. ‘‘Já estamos ficando desesperadas sem saber onde o pessoal estᒒ, disse. Sandra reclamou que não tem colchões para todos e estava sem almoço até o final da tarde. ‘‘Tivemos que dormir encostados na parede a noite inteira’’.
Em nota divulgada por sua assessoria de imprensa no final da tarde de sábado, o governador Jaime Lerner determinou a ‘‘apuração com todo o rigor das causas do incidente nas fazendas Santo Angelo e Boa Sorte’’ e classificou a ocorrência de ‘‘intolerável’’. Segundo a assessoria do Palácio Iguaçu, Lerner acionou a Secretaria de Segurança Pública para a prisão imediata dos envolvidos, encarregando o secretário Cândido Martins de Oliveira de enviar para a região um grupo de policiais de Maringá e destacar um delegado especial para acompanhar o caso.

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