Londrina

Paulo WolfgangDe noite, bandeira azulAdelmo Pereira, o mais animado sem-terra no Café, tenta dar uma força para o LEC: ‘Nunca segurei uma bandeira tão grande assim’São todos homens do campo. Uns tratam a terra com arado, semente e adubo. Outros aproveitam o tapete verde para correr, de um lado para o outro, atrás da bola e do gol. Na amarga desclassificação do Londrina Esporte Clube (LEC) no Campeonato Brasileiro da Série B, anteontem à noite, no Estádio do Café, contra a jovem equipe do Naútico de Recife (PE), o time da casa não pode reclamar de pelo menos uma coisa: o apoio da torcida. Cerca de 250 trabalhadores sem-terra, que passavam pela Cidade na marcha que segue até Curitiba, foram ao estádio e engrossaram a torcida organizada Sangue Azul. Eles levantaram bandeira (do LEC), gritaram, deram murros no ar, xingaram o bandeirinha. Enfim, vibraram como loucos pelo Tubarão.
Os ingressos para a partida foram cedidos ao MST por ‘‘empresários da Cidade’’, depois da interferência do prefeito Antonio Belinati (PDT). A maioria deles nunca tinha colocado os pés num estádio, ainda mais numa situação de ‘‘vida ou morte’’, como estavam os dois adversários. E sobrou mesmo empolgação na estréia em campos de futebol. ‘‘Tô adorando, achando ótimo mesmo’’, dizia Adelmo Pereira, 34 anos, pai de uma menina e natural de Querência do Norte. Corintiano de coração, na última terça-feira ele não ficou devendo nada ao torcedor mais fanático do Londrina: pulava, gritava, dava socos no ar e até arriscou um palpite: ‘‘2 x 0’’.
Ainda não se sabe de onde ele arrumou a enorme bandeira alviceleste, que tremulava em suas mãos, mas Adelmo não demorou muito para encontrar uma justificativa para tanto otimismo. ‘‘Aqui é a terra da minha mãe. E hoje eu sou Londrina, eu sou paranaense’’, lembrou, quase sem querer, pouco antes do jogo. Com os olhos vidrados nos fogos de artifício, que explodiam com a entrada dos jogadores do Tubarão, Adelmo concluiu: ‘‘Nunca segurei uma bandeira tão grande assim. Nem do MST!’’
Com o radinho de pilha grudado na orelha, Nerino Casali, 32 anos, também de Querência do Norte, era outro que parecia um torcedor do Londrina desde criancinha. ‘‘Aqui é animado, estou gostando muito.’’ A última vez que ele pisou num estádio de futebol foi há 11 anos em Maringá. Sobre o Tubarão, Nerino tinha certeza da vitória, ainda mais porque - ele lembrou - o time da casa contava com um jogador de Querência: o meia Edílson.
‘‘Torço para o Grêmio de Porto Alegre. Mas hoje sou Londrina, vamos ganhar’’, apostava José da Silva, 32 anos, de Capanema (Sudoeste do Estado). Com um otimismo descomunal, o sem-terra era outro que gritava, batia palmas e esmurrava o ar. ‘‘Assim como eu, 95% deles nunca tinham entrado num estádio’’, apontou Pedro Faustino, 21 anos. Segundo ele, antes de chegar ao Café havia até um certo receio de qual seria a reação da torcida com a presença dos sem-terra. Receio que acabou rapidinho. ‘‘O pessoal nosso tem essa característica de ser sempre animado e acho que até vai contribuir para ajudar o Londrina ganhar a partida’’, acreditava.
Mas a presença dos sem-terra praticamente só foi mesmo percebida pelos integrantes da Sangue Azul, já que eles ficaram perto da torcida organizada. Além do mais, quase ninguém usava boné do movimento e não se viu uma só bandeira do MST. A integração, porém, foi tranquila. ‘‘Foi uma surpresa, para nós, a presença deles no estádio. E isso é bom, vai ajudar o nosso time’’, apontou o presidente da torcida, Milton Aparecido da Silva. ‘‘E eu até sou a favor do MST, desde que seja um movimento pacífico.’’
Com tanta empolgação, os sem-terra não imaginavam passar pelo apuro que foi o jogo contra o Náutico. Gol do adversário no primeiro tempo; empate anulado pelo bandeirinha, em lance duvidoso, no segundo; finalmente o empate, suado, quase no final da partida; decisão pela loteria dos pênaltis. A festa dos jogadores de Recife contrastava com o clima de consternação que pairou no resto do estádio depois da última penalidade. Para o Tubarão, a marcha rumo à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro acabou nas mãos do talentoso goleiro Nei, que fechou o gol do Náutico. Para os sem-terra, a marcha segue, até o dia 22, quando chegam para a manifestação em Curitiba. Tomara que, para os times da Capital, eles tragam mais sorte.

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