O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em Querência do Norte (113 km a noroeste de Paranavaí), promete fazer uma investigação paralela à da polícia, para identificar o responsável pela morte de Eduardo Anghinoni, 30 anos, irmão de um dos líderes do movimento na região, Celso Anghinoni. Ele morreu na última segunda-feira, depois de levar cinco tiros enquanto conversava com Celso na casa da família no assentamento Pontal do Tigre. ‘‘Não queremos que mais um crime fique impune’’, disse durante o velório Delfino Becker, também da liderança do MST em Querência do Norte.
Ele se referia à morte de mais dois sem-terra desde fevereiro do ano passado em propriedades ocupadas na região, sempre envolvendo pessoas desconhecidas. Para o MST, os responsáveis pelas mortes são ruralistas que contratam pistoleiros para pressionar os sem-terra. Agora a preocupação é maior, porque a vítima era irmão de um dos líderes, e todos não disfarçam que o alvo deveria ser Celso. ‘‘Todos estamos jurados de morte há muitos anos’’, disse Becker à Folha.
As duas últimas mortes de sem-terra na região, fora a de Eduardo, mobilizaram a polícia mas até agora os responsáveis não foram punidos. Em 7 de fevereiro do ano passado, Sebastião Camargo Filho, 65 anos, foi morto com um tiro no rosto de escopeta calibre 12, durante desocupação da Fazenda Boa Sorte, em Marilena (89 quilômetros a noroeste de Paranavaí). Segundo o MST, 50 ‘‘pistoleiros’’ fizeram a desocupação da fazenda Santo Angelo, por volta das quatro horas da manhã. As 40 famílias saíram sem resistência.
Marcos NegriniNova tragédiaVelório de Eduardo Anghinoni, com presença de mais de 300 sem-terra: terceiro crime na região desde 98No início da manhã, os pistoleiros foram até a Boa Sorte. De acordo com a versão dos sem-terra, chegaram atirando. Além da morte de Camargo, dois acampados ficaram feridos. O MST acusou vários ruralistas pela desocupação, e chegou a prender sete acusados, além de apontar um empresário de Paranavaí, dono de uma empresa de segurança, como parceiro dos proprietários na ação. Nenhum dos suspeitos ficou preso.
No dia 27 de novembro do ano passado a vítima foi o sem-terra Sétimo Garibaldi, 51 anos, que estava acampado na Fazenda São Francisco, em Querência do Norte. A ação foi parecida com a da Boa Sorte. Um grupo de 15 homens encapuzados e armados de pistolas, escopetas e metralhadoras chegou de madrugada na área. Os sem-terra foram acordados com gritos e tiros. Garibaldi saiu da barraca e tentou correr, sendo atingido na perna. O tiro rompeu a veia femural, e ele morreu de hemorragia. Os sem-terra acham que ele poderia ser salvo se os pistoleiros permitissem socorrê-lo a tempo.
Os pistoleiros chegaram gritando que eram da polícia, mas alguns foram reconhecidos pelos sem-terra. Eles acusaram na época do dono da fazenda, Morival Favoreto, e chegaram a identificar um ex-funcionário dele, Ailton Lobato, que foi preso no dia seguinte. O crime está impune. No mesmo dia, em Laranjal, a 140 quilômetros de Guarapava, outro sem-terra e um pistoleiro morreram em confronto. José Rodrigues, 17 anos, acampado na fazenda Pedra Branca e o pistoleiro Nelson Pinto Guimarães, 22, morreram em consequência da disputa de uma área da propriedade.
A morte de Eduardo Anghinoni tem recebido mais atenção das autoridades. A Polícia Civil designou um delegado especial para o caso, o chefe da 8ª Subdivisão Policial, de Paranavaí, Luiz Norberto Canhoto. Ele convocou investigadores de toda a região, já iniciou os trabalhos na cidade e amanhã começa a ouvir parentes da vítima e membros do MST.Marcos NegriniRevolta camponesaEnterro do sem-terra José Arnaldo dos Santos, em Nova Cantu: 20 meses depois, polícia não tem soluçãoMarcos Zanatta

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