Sem-terra plantam em fazenda modelo
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quinta-feira, 25 de setembro de 1997
Valmir Denardin São Miguel do Iguaçu 
Ney de Souza
MutirãoTrator cedido por famílias assentadas na região estava sendo usado pelo grupo de aproximada-mente 300 pessoas no plantio de três hectares de mandioca; intenção
é cultivar, de início, 480 dos 1.098 hectares da propriedade
As 300 famílias sem terra que desde o dia 6 de agosto estão acampadas em uma área às margens da BR-277, entre Santa Terezinha de Itaipu e São Miguel do Iguaçu (Extremo-Oeste do Estado), e que no dia 17 do mesmo mês entraram na propriedade para retirar eucaliptos e montar um campo de futebol, começaram anteontem à tarde o plantio de mandioca no local. A Mitacoré - que pertence à Bamerindus S/A Participações e Empreendimentos, holding do Grupo Bamerindus, que está sob intervenção do Banco Central - é considerada por técnicos uma fazenda modelo e acumula prêmios de produtividade.
Até ontem à tarde, os sem-terra haviam plantado mandioca em uma área de três hectares. Aproximadamente 300 pessoas trabalhavam no plantio. Um trator, cedido por famílias assentadas na região, estava sendo usado pelo grupo. Segundo Celso Barbosa, integrante da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Oeste, a intenção é cultivar, de início, 480 dos 1.098 hectares da propriedade. Além de mandioca, o grupo pretende plantar arroz, feijão, milho e hortaliças.
Barbosa afirmou que o plantio foi iniciado porque os sem-terra precisam produzir alimentos. Essa área é do Banco Central. Como é do Banco Central, é do povo. É nossa. Ele disse também que considera a fazenda produtiva. Mas ela não cumpre sua função social, de produzir alimentos para a população da região, afirmou. Se ela for usada na reforma agrária, será mais produtiva ainda.
O administrador da Fazenda Mitacoré, Adilson Sabec Peres, disse que a área onde os sem-terra plantaram mandioca estava sendo preparada por funcionários para o plantio de milho. Depois que os sem-terra entraram na fazenda para plantar, os empregados foram retirados dessa área. Segundo Peres, não houve hostilidade entre os dois grupos. Assim que soube da ocupação, o administrador informou a diretoria interventora do Banco Central, em Curitiba.
A Mitacoré emprega 21 famílias. A fazenda é considerada campeã brasileira na produção de milho por hectare, com 8,2 mil quilos por hectare, enquanto a média nacional é de 3 mil quilos por hectare. Pelo nono ano consecutivo, a fazenda receberá o Prêmio Destaque pela sua produção e uso de tecnologia na cultura de milho. O prêmio é conferido pela revista A Granja, principal publicação rural do País.
O escritório regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), com sede em Cascavel, deve concluir na próxima segunda-feira o relatório sobre as famílias acampadas ao lado da Mitacoré.
De acordo com o chefe do escritório, Valdir Dorine, o relatório vai traçar um perfil dos acampados, inclusive se há tradição agrícola entre as famílias. O documento é uma pré-seleção feita pelo Incra e pelo governo do Estado para assentamento. No entanto, isso não quer dizer que todos serão assentados, disse, por telefone, o chefe do Incra. Segundo ele, não há nenhum posicionamento do Incra em promover a reforma agrária na Mitacoré. (Colaborou Antônio França)


