Sem-terra ocupam fazenda e detêm dois
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quinta-feira, 16 de janeiro de 1997
Lucinéia Parra Sucursal de Maringá 
Edson GuittiLogo depois da ocupação, foi iniciada a construção dos barracos na área
CRUZEIRO DO SUL á- Cerca de 110 famílias de trabalhadores sem-terra ocuparam, por volta das 8 horas de ontem, a Fazenda Doralúcia, em Cruzeiro do Sul (a 70 quilômetros de Maringá). A fazenda é de propriedade do grupo Jofran, de Curitiba. Os sem-terra mantiveram presos, por mais de sete horas, dois funcionários da fazenda.
Líderes do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) afirmaram que os dois são capangas contratados pelo proprietário da fazenda para fazer a segurança da área. Os sem-terra detiveram os capangas e apreenderam uma carabina calibre 22, além de munição.
Um dos detidos é o ex-delegado de Iguaraçu, Agnaldo de Souza Miranda. Os sem-terra disseram que Miranda portava a carabina no momento da ocupação. Líderes do MST também afirmaram que outros cinco capangas teriam fugido da área no momento da ocupação.
Além de Miranda, os sem-terra mantiveram detido outro empregado da fazenda, Amaro Ricardo Juliano. Miranda negou ser segurança da fazenda. Disse que foi contratado para tratar de cavalos. Já Juliano afirmou que está trabalhando há pouco mais de dez dias na fazenda e foi contratado para fazer o pagamento dos funcionários.
Detidos pelos
sem-terra tinham
uma carabina
e munição
Depois de liberados pelos sem-terra, ontem à tarde, Miranda e Juliano foram encaminhados à delegacia de Paranacity. De acordo com o coordenador do MST, Clodoaldo da Silva, os dois foram detidos porque ameaçavam a segurança dos sem-terra. Eles estavam armados quando chegamos na fazenda e só não atiraram porque ficaram com medo diante do número de trabalhadores, explicou.
Na delegacia de Paranacity, o ex-delegado foi indiciado por porte ilegal de arma e liberado. O delegado de Paranacity, Cláudio Marques da Silva, afirmou que vai abrir inquérito para apurar acusação de cárcere privado cometido pelos sem-terra. A acusação foi feita pelos dois trabalhadores da fazenda.
Apesar do incidente com os trabalhadores da fazenda, o clima ontem à tarde na área era calmo. Os invasores já começavam a preparar o solo para o plantio. Eles se espalharam pela sede da fazenda, que tem mais de dez moradias.
Edson Guitti Segundo o MST, dois capangas da fazenda só não atiraram porque foram intimidados e detidos pelos trabalhadores sem-terra que ocuparam a áreaSegundo Silva, participaram da ocupação famílias da região de Cascavel. A maioria morava nos municípios de Campo Bonito e Guaraniaçu (Oeste do Estado). Ele afirmou que a área ainda não foi vistoriada pelo Incra. Nós ocupamos a fazenda porque ela é improdutiva como qualquer pessoa pode ver, disse. A fazenda tem 350 alqueires.
A Folha só conseguiu identificar ontem um funcionário da Doralúcia. Mizael Cardoso da Silva disse que trabalha na fazenda há 20 anos e que está sem receber desde abril, quando pediu demissão. O dono da fazenda não aparece na propriedade há muito tempo e até agora eles não fizeram o meu acerto, reclamou.


