Sem-terra ocupam área com destilaria
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quinta-feira, 28 de novembro de 1996
Luciane Tonon 
RIBEIRÃO DO PINHAL - Cerca de 60 famílias de sem-terra invadiram, ontem cedo, a Fazenda Santa Maria, em Ribeirão do Pinhal (56 quilômetros a oeste de Jacarezinho). A invasão vinha sendo planejada desde maio, sob a alegação de que o proprietário das terras está inadimplente com empréstimos bancários e com a Receita Federal.
O próprio presidente disse que as terras que fossem para o Banco do Brasil seriam destinadas aos sem-terra. Por isso, sabemos que podemos entrar aqui, disse Odair Macota, um dos líderes do acampamento. A invasão ocorreu às 6 horas, quando os guardas da fazenda deixaram o posto para tomar café.
Odair Macota afirma que os sem-terra só sairão da fazenda se a Justiça mandar. Faz mais de 50 anos que a reforma agrária foi assinada e até hoje não se resolve nada, ressaltou o bóia-fria Alfredo Gavenuque, que estava alojado na casa de um filho em Ribeirão do Pinhal.
Nós só queremos terra para trabalhar porque cansamos de esperar pelo Incra, disse o sem-terra Francisco Garcia. A vida tá difícil, os fazendeiros estão pagando pouco e esta é a opção que encontramos para trabalhar, desabafou o sem-terra André Garcia. Para as mulheres, a invasão é um desafio. Quando você vê teu filho com fome, faz o que for preciso, disse a bóia-fria Luzia Fracaroli.
O proprietário da Fazenda Santa Maria, Chepli Tanos Daher Filho, afirma que a propriedade é altamente produtiva. A área é de 292 alqueires, sendo 160 de plantação de cana, 80 de mata e o restante de pasto. Ela sedia uma usina de cachaça com capacidade de produção de 4 milhões de litros por safra, oferecendo 160 empregos. O recolhimento de ICM é de R$ 200 mil.
Segundo Daher, houve uma ação judicial entre os dois ex-donos da área sobre uma pendência numa das prestações na ocasião da venda da terra. Na época, nós arrendávamos as terras e não temos nada com esta briga, disse Daher, que adquiriu a fazenda em 1994.
Ele acredita que os invasores estão servindo de bode expiatório e que não estão sendo orientados pelo Movimento Sem-Terra (MST). Vamos pedir reintegração de posse porque isso foi um ato de vandalismo. Nossa terra não está abandonada, afirmou.
Quanto à dívida com o Banco do Brasil, avaliada em R$ 400 mil, Daher garante que foi quitada através de permuta com a cachaça produzida. O Banco do Brasil aceitou 2,3 milhões de litros de pinga para quitar a dívida. O produto inclusive está lacrado, informou Daher.
De acordo com informações obtidas no fórum, as negociações ainda estão em andamento. Houve uma penhora do produto como garantia da dívida, mas não se sabe se o valor quita a dívida. Até a tarde de ontem, os sem-terra ainda não tinham recebido uma posição do Incra. Fiscais do Instituto Ambiental do Paraná esteviram no acampamento para saber das necessidades dos acampados. Eles pediram lona e comida para as crianças.


