Sem-terra não aparecem para depor
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terça-feira, 03 de junho de 1997
Osmani Costa 
O delegado do 4º Distrito da Polícia Civil de Londrina, Jurandir Gonçalves André, pretende tomar depoimentos hoje à tarde de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), acusados de terem participado do assassinato do segurança José Lopes de Oliveira, conhecido como Django. Ele foi morto com um tiro de revólver calibre 38 na cabeça, dia 27 de abril, durante a invasão à casa do administrador da fazenda Borborema, em Tamarana (60 km ao sul de Londrina), por dezenas de sem-terra que haviam ocupado parte da propriedade rural em setembro do ano passado.
Os depoimentos estavam marcados para a tarde de ontem, mas os acusados não compareceram ao 4º Distrito. O advogado do MST, Gerson da Silva, reuniu-se com o delegado e disse que os trabalhadores não vieram a Londrina em razão das dificuldades do acesso de automóveis aos acampamentos na zona rural de Tamarana, onde as estradas de terra foram muito castigadas pelas chuvas dos últimos dias.
A previsão é de que os interrogatórios estejam completos até a tarde de sexta-feira. O delegado Jurandir André espera ouvir mais de 20 suspeitos de participar, pelo menos, como co-autores da morte de Django. Exames do Instituto de Criminalística de Londrina, com base em imagens da TV Londrina, concluíram que 22 pessoas participaram da invasão da casa e da ação do crime. O delegado garante que cerca de 15 suspeitos já foram identificados.
Dos acusados de co-autoria, apenas o diretor regional do MST, Josmar Choptian, prestou depoimento até ontem. Ele negou ter estado presente à cena do assassinato. Os exames da Criminalística não foram suficientes para identificar o autor do disparo que matou Django, 36 anos. O segurança morto foi acusado pelo MST de ser pistoleiro profissional. A arma do crime não foi encontrada pela polícia.
A reconstituição do crime e outros exames da Criminalística comprovaram que Django foi assassinado com um tiro disparado à queima-roupa, quando estava caído e dominado. Django e outro segurança, Edson Lucena, haviam sido contratados pelo arrendatário da fazenda, Pedro Ribeiro, para executar a desocupação da área.
Além da tomada dos depoimentos, o delegado espera o laudo do exame de necrópsia feito pelo Instituto Médico Legal (IML) de Londrina no cadáver de Django para a conclusão do inquérito. O inquérito deveria ter sido encaminhado à Justiça no final do mês de maio, mas não ficou pronto por falta deste laudo e da recusa dos sem-terra em depor espontaneamente. O delegado Jurandir André solicitou e a Justiça concedeu mais 30 dias para o término das investigações e apresentação do relatório final do inquérito.
O delegado ameaça requerer a prisão preventiva dos acusados, caso eles não compareçam para interrogatório até o final desta semana. O IML prometeu entregar o laudo da necropsia nos próximos dias. Tendo ele em mãos, vou concluir o inquérito com ou sem os depoimentos dos suspeitos. Se eles estão foragidos e não aparecem para depor, não sobra outra opção a não ser pedir ao juiz que decrete a prisão preventiva, explica Jurandir André. Mesmo sem ter descoberto quem puxou o gatilho, o crime está esclarecido e temos definidos vários co-autores. E eles irão a julgamento como responsáveis pelo assassinato do Django.
A fazenda Borborema, com 338 alqueires, é propriedade do empresário londrinense Chaufic Burihan, e foi considerada improdutiva pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), estando, portanto, passível de desapropriação para fins de reforma agrária.


