Tamarana

Milton DóriaDe mala e cuiaSem-terra já se instalaram na Fazenda Borborema: na propriedade, Django fez ameaças e foi mortoIntegrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) invadiram novamente a Fazenda Borborema, a 8 quilômetros de Tamarana, no Norte do Estado. O local foi palco, em abril, de um dos mais graves conflitos agrários do País neste ano. O segurança José Lopes de Oliveira, 36 anos, conhecido como Django, foi morto pelos sem-terra, com tiro na cabeça, em 27 de abril, um dia depois de ter feito diversas ameaças às famílias de acampados, para que desocupassem a área. O novo acampamento foi montado nos fundos da fazenda, ao lado de uma vasta área de pastagem.
Logo após o conflito que resultou na morte de Django, os sem-terra acamparam perto de uma estrada vicinal, ao lado da Fazenda Borborema. Segundo um dos líderes do acampamento, Nivaldo Santiago, eles decidiram voltar para a propriedade nesta segunda-feira porque o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estaria demorando demais para resolver o problema dos acampados. Ele define a nova ocupação como ‘‘uma forma de protesto pela situação das famílias’’ e espera que o Incra aponte logo uma área definitiva para o assentamento.
‘‘A dona Maria (de Oliveira, superintendente do Incra no Paraná) prometeu que em 30 dias ia acertar a situação da gente. Mas já fazia mais de seis meses que a gente estava na estrada e ninguém foi lᒒ, justificou Santiago. ‘‘Nós já estamos cansados de ficar na beira da estrada. Faz um ano e meio que estamos parados e não podemos trabalhar. Ninguém aguentava mais esse tipo de coisa.’’
O sem-terra assegura que 25 famílias, no total, ocuparam a fazenda na noite da última terça-feira. Mas ontem, por volta do meio-dia, havia pouco mais de 30 pessoas no assentamento, entre elas algumas crianças. Santiago afirmou ainda que entre ontem e hoje novas famílias chegariam à Borborema, totalizando 56. ‘‘O pessoal foi buscar mudança, lona, essas coisas. Até amanhã está todo mundo aí.’’
O delegado Jurandir Gonçalves André, do 3º Distrito Policial de Londrina, disse ontem que o inquérito que apura a morte do segurança Django foi concluído e enviado ao Ministério Público. Mas a Promotoria solicitou novas diligências para ter certeza antes de denunciar ou não por homicídio os indiciados.
Jurandir André não soube apontar quantas pessoas ainda precisam ser ouvidas nem quanto tempo vai levar para realizar esse trabalho. A demora, ele justifica, se dá porque algumas diligências dependem de outras comarcas, como por exemplo no caso do sem-terra conhecido como ‘‘Cidão’’, que vive no Pontal do Paranapanema (SP).
Dos 22 sem-terra supostamente envolvidos no conflito, 12 foram indiciados por co-autoria, entre eles o coordenador regional do MST, Josmar Choptian. ‘‘Ninguém confessou ter puxado o gatilho’’, disse o delegado, com base nos depoimentos que já foram tomados - mais de 50, até agora. No entanto, apenas um sem-terra envolvido na morte da Django ainda tem pedido de prisão temporária decretada: é Francisco Geraldo Pereira, que está foragido.
A expectativa do delegado é receber ainda nesta semana o depoimento de Nivaldo Santos Siqueira, que também estaria envolvido no confronto e que até agora não se apresentou à polícia. A pena para co-autoria de homicídio doloso é a mesma para o autor do crime: de 12 a 30 anos de prisão.
Sobre a possibilidade de novos conflitos na Fazenda Borborema, o sem-terra Santiago disse que ‘‘medo todo mundo tem’’, mas não está preocupado. Se acontecer de a polícia ou mesmo seguranças contratados tentarem desocupar a área, ele diz que a medida será chamar o Incra para resolver o problema. Mas, se houver novas agressões, como ocorreu em abril, o sem-terra afirma que o resultado será ‘‘imprevisível’’. Ele garante que não existem armas no assentamento e que, na época do confronto com Django, ele não estava em Borborema. ‘‘Mas quem segura uma pessoa que está sendo atacada?’’

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