Sem-terra fica algemado no hospital
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 1998
Sid Sauer 
O sem-terra José Fausto dos Santos, 36 anos, está sendo mantido algemado na cama do Hospital Interclínicas, em Campo Mourão, onde está internado. Ele foi operado após receber um tiro durante a desocupação da Fazenda Esperança, em Mamborê (36 km a sudoeste de Campo Mourão). As algemas que prendem o braço esquerdo de Santos à cama foram colocadas assim que saiu da cirurgia, anteontem de manhã. Ele é mantido preso na cama inclusive na hora de dormir.
Além das algemas, o sem-terra é vigiado constantemente por um policial militar que fica com ele no quarto. Sindicalistas que visitaram Santos pela manhã prometeram denunciar o caso à promotoria. Eles acusam a PM de abuso, uma vez que o sem-terra estaria sem condições de fugir apenas pela cirurgia a que foi submetido. O comandante do 11º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Darci Dalmas, alega que as algemas são uma necessidade de segurança.
Quem garante que ele não vai pular a janela?, questiona o comandante. Ele também anunciou que vai averiguar a realização da visita dos sindicalistas. O sem-terra está sob custódia policial e não pode ser visitado por ninguém que não seja da família, explica. A proibição inclui a imprensa, que não pode conversar ou tirar fotos de Santos. Dalmas diz que ele deve ser levado para a cadeia de Mamborê, onde estão outros 11 sem-terra, assim que for liberado pelos médicos.
Segundo informações do hospital Interclínicas, Santos passa bem, mas até ontem à tarde não havia previsão de alta. Ele recebeu um tiro na barriga. A PM diz que o tiro foi dado pelos próprios sem-terra. O delegado de Mamborê, Laércio Cardoso Fahur, está preocupado com a segurança da delegacia. A cadeia da cidade tem capacidade para abrigar apenas oito presos. Se Santos for levado para lá, a lotação será extrapolada em 50% apenas com o sem-terra.
Protestos Para que os 11 sem-terra presos pudessem ficar em Mamborê, a delegacia teve que transferir às pressas outros seis presos para a cadeia de Boa Esperança (56 km a oeste de Campo Mourão). Existe a possibilidade de transferência dos sem-terra para Campo Mourão, onde a cadeia também está superlotada. O principal receio em Mamborê é que aconteçam protestos pela prisão dos sem-terra, uma vez que a cidade conta com poucos policiais.
A retirada dos sem-terra da Fazenda Esperança foi considerada violenta porque houve reação. Além de Santos, o soldado José Maria de Oliveira foi ferido com um golpe de foice na mão. A ação policial contou com 149 policiais militares e 2 civis e retirou 120 famílias que estavam acampadas no local desde o início do ano. Os invasores foram mandados para suas cidades de origem. O sem-terra ferido já tinha sido preso durante uma invasão em Nova Cantu.


