Sem-terra entregam armas de jagunços à polícia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de julho de 1997
Maurício Borges Jardim Alegre 
Duas carabinas calibre 12 e dois revólveres calibre 38 tomados de jagunços pelos sem-terra que ocupam a Fazenda 7 mil foram entregues ontem ao delegado de Jardim Alegre (120 km ao sul de Apucarana), João Batista Prado. A entrega das armas aconteceu na porteira da fazenda e foi acompanhada pelo advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST), Elso Bittencourt.
Segundo o delegado, ainda ontem quatro sem-terra seriam ouvidos na delegacia de Ivaiporã para relatar o incidente ocorrido na terça-feira. Vamos juntar ao inquérito policial um termo de apreensão, verificando se as pessoas que estavam com elas têm registro e porte de armas.
O inquérito já está instaurado e foi designado para presidi-lo o delegado-adjunto de Apucarana, Roberval Butaccini. No mesmo inquérito também está sendo investigado o caso do técnico Rogério Vila, do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que foi ferido por seguranças da fazenda numa inspeção de rotina à área.
Ontem, ao entregar as armas à polícia, líderes do acampamento reafirmaram ao delegado de Jardim Alegre e ao detetive Milton Maria de Oliveira sua versão para o incidente. De acordo com eles, oito seguranças da fazenda, armados e com um trator de esteira, aproximaram de forma ameaçadora de uma mina dágua onde mulheres lavavam roupas.
Foi preciso que as mulheres se posicionassem diante do trator para evitar que eles avançassem, talvez com a intenção de destruir nossa fonte de água, contou Antônio Cardoso. O alerta dado pelas mulheres mobilizou as 520 famílias do acampamento. Com foices e outras ferramentas conseguimos desarmar e render quatro seguranças, disse o sem-terra. A fazenda de quase seis mil alqueires foi invadida em 8 de abril.
O advogado Elso Bittencourt informou ontem que a fazenda foi considerada pelo Incra como improdutiva e já está prestes a ser desapropriada para reforma agrária. Conforme Bittencourt, os recursos encaminhados pelos proprietários da fazenda para que fosse feita uma nova avaliação não surtiram efeito.
Proprietário O proprietário da área, Flávio Pinho de Almeida, enviou ontem um fax à Folha afirmando que o incidente foi causado por uma agressão dos sem-terra contra os empregados da fazenda. Ele alegou que o incidente ocorreu fora da área do acampamento ilegal do MST. Só não houve um confronto porque nossos empregados têm recomendação expressa de somente observar a movimentação dos invasores.


