Sem-terra desocupam sede da Sociedade Rural Monte Castelo
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sábado, 21 de fevereiro de 1998
Marccio W. Varella 
Marcos NegriniDesocupaçãoSem-terra deixaram a sede da Sociedade Rural mas avisam que continuam mobilizados e dispostos a brigar até a morte. Eles vão aguardar nova proposta do Incra.Os 200 sem-terra que ocuparam a sede da Sociedade Rural Monte Castelo, na saída do município de Santa Cruz do Monte Castelo para Querência do Norte (a 200 km de Maringá), na tarde da última sexta-feira, retornaram aos seus acampamentos na manhã de ontem. A sede da Sociedade Rural fica na beira da PR-218, caminho obrigatório para chegar a Querência por asfalto (há caminho de terra que parte de Umuarama). Os sem-terra bloquearam a pista, armados de foices e facões, e estavam dispostos a enfrentar a Polícia Militar.
Um dos coordenadores do MST na região, o assentado Nildemar da Silva, 33 anos, informou que o governador Jaime Lerner havia determinado a suspensão das desocupações, e por isso os agricultores estavam se retirando do local. Vamos dar um voto de confiança a ele. O Incra nos prometeu apresentar na próxima quinta-feira uma proposta operacional. Vamos aguardar. Mas aviso desde já que não estamos desmobilizados. Somos mais de 1 mil homens mobilizados na região Noroeste dispostos a enfrentar as balas e a morrer. Vamos apenas retornar para trás das trincheiras e esperar que o governo mais uma vez cumpra sua promessa.
O MST ocupou 22 fazendas na região Noroeste do Paraná (há oito acampamentos entre Querência e Monte Castelo). Segundo Nildemar, 20 delas são improdutivas e uma das que foram consideradas produtivas, a Água da Prata, em Querência, que tem cerca de 200 famílias acampadas, está em negociação com os sem-terra. Em maio de 97, o MST tinha 1.050 famílias em regiões invadidas no Noroeste. Hoje, esse número dobrou, calculam os coordenadores.
Apesar da ordem de retornar aos acampamentos, o clima era de tensão ontem na região de Monte Castelo e Querência. Na sexta-feira, eles invadiram a sede da Sociedade Rural, desfraldaram bandeiras do MST em frente à entrada e ocuparam as dependências do parque, onde passaram a noite, se revezando na vigília da estrada. Se os soldados tivessem aparecido ia ter briga. Não temos medo de bala. Morrer com tiro é mais rápido, dói menos. Morrer de fome é pior, disse outro coordenador do MST, Delfino Becker, 35 anos.
Entre os que ocuparam a Sociedade Rural, havia crianças, mulheres e adolescentes, que também carregavam foices e facões. Com a suspensão das desocupações, uma assembléia realizada na Sociedade Rural decidiu também suspender a panfletagem que estava marcada para hoje e amanhã nas estradas da região.
Outra reunião decidiu também que os cerca de 1 mil sem-terra destacados para bloquear as rodovias ficassem de sobreaviso em seus acampamentos. Nas invasões localizadas em Monte Castelo, Querência do Norte, Rio Bonito (Centro do estado) e Nova Cantú (Centro-Oeste), os sem-terra construíram trincheiras e barricadas com estacas e pedaços de pau na entrada das fazendas. Na Fazenda São Pedro, a 20 km de Monte Castelo, a trincheira de toras de madeira impede o acesso de qualquer tipo de veículo.


