Sem-terra depredam quartel da PM
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quinta-feira, 05 de março de 1998
Alexandre Sanches e Luiz Carlos Dias Júnior 
O secretário de Estado da Segurança Pública, Rubens Abrahão Tanure, determinou ontem a abertura de inquérito policial para apurar a responsabilidade criminal dos participantes da ação de depredação, anteontem à noite, da sede da 3ª Companhia da Polícia Militar de Pitanga (88 km ao norte de Guarapuava). Um grupo de aproximadamente 80 trabalhadores sem terra, armados de facões, foices e enxadas, invadiu o prédio destruindo móveis, portas e janelas. Uma viatura também foi depredada.
Segundo a Polícia Militar, o motivo foi a apreensão, anteontem à tarde, de um caminhão carregado com aproximadamente 400 sacas de milho, colhidas na Fazenda Perpétuo Socorro, de 880 alqueires, em Santa Maria do Oeste. A área foi invadida no dia 29 de dezembro. O delegado de Santa Maria, Loir Bráz de Lara, reteve o veículo acusando os sem-terra de apropriação indébita do milho, de propriedade do arrendatário Alfredo Wolbert.
Na semana passada os ruralistas da região de Guarapuava solicitaram reforço da PM para colher os 70 hectares de milho na propriedade ocupada por membros do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A PM disse que só poderia realizar tal ação com autorização judicial. O Incra divulgou uma nota em que permitira a colheita, mas na segunda-feira os sem-terra quebraram o acordo.
O veículo apreendido foi levado para a 3ª Companhia e os sem-terra Emerson Peroza e Sílvio Cesar Maria foram levados presos para a 14ª Subdivisão Policial de Guarapuava. Por volta das 21h15, o grupo de sem-terra chegou em um caminhão a Pitanga. Segundo um policial que preferiu não se identificar, os invasores deram machadadas nas portas e ameaçaram o único policial de plantão.
Eles reviraram tudo e quebraram janelas e alguns móveis, atrás dos sem-terra que foram levados para Guarapuava, contou. Uma viatura Toyota, utilizada no patrulhamento rural, chegou com reforços e foi recebida a golpes de foices e machados, ficando quase destruída. Dois policiais foram feridos, mas passam bem. Os sem-terra jogaram uma bomba de coquetel molotov, encharcando o veículo de gasolina. Mas não deu tempo de colocar fogo, comentou o delegado de Pitanga, Messias Antônio da Rosa.
Ontem de manhã, seguranças e funcionários da Câmara de Vereadores, que fica ao lado da Companhia da PM, foram ouvidos na delegacia. Messias disse que as pessoas não conseguiram identificar os agressores. Ele aguarda que a Justiça emita um mandado de busca e apreensão para investigar a Fazenda Perpétuo Socorro, de propriedade de José de Mattos Leão. Por enquanto não temos como ir ao local e precisamos de reforço policial, disse.
Os dois sem-terra presos e o caminhão pertencem à Coagri, uma cooperativa de sem-terra da região central do Paraná. Ruralistas comandados pela Cooperativa Agrária Mista Entre Rios e pelo Sindicato Rural de Guarapuava devem entrar com uma queixa-crime contra a Coagri por receptação de produto roubado.
Punição O comandante do 16º Batalhão da PM em Guarapuava, Dieter Weege, disse que a intenção dos sem-terra era comercializar o milho, já que haviam conseguido notas fiscais falsas. Atitudes de vandalismo contra o patrimônio público não podem ficar impunes. Há pessoas perversas infiltradas no movimento dispostas a tumultuar as ações. Estes indivíduos querem desconstituir as autoridades policiais e zombar do governo, afirmou.
O delegado-adjunto da 14ª SDP, Sidnei Martins Leal, ouviu ontem à tarde os dois sem-terra detidos mas ainda não havia qualificado o flagrante. Vamos tomar as providências para que casos como este não se repitam. A fazenda já tinha a sua plantação realizada quando os sem-terra invadiram. Eles fizeram apropriação indébita, ressaltou.
A secretaria de Segurança Pública determinou o envio de reforço policial para o local, para garantir a paz tanto na área urbana quanto na rural. Ontem, o comandante do 26º Grupo de Artilharia, tenente-coronel João Cezar Zambão da Silva, reconheceu que o quadro merece a atenção do Exército, a título de acompanhamento. Ele prometeu fazer com que as informações sobre o conflito cheguem à Presidência da República. (Colaborou Paulo Esteche, especial para a Folha)


