Sem-terra deixam rastro de destruição
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de novembro de 1998
Lucinéia Parra 
O que mais me revolta é o vandalismo praticado pelos sem-terra. Eles não estão respeitando mais nada. Abatem animais, roubam e o que é mais grave: danificam a propriedade e os bens materiais sem a menor preocupação em relação ao valor comercial ou sentimental que representam para o dono da área. A declaração é do pecuarista Carlos Mauro Cersi, 50 anos, filho do fazendeiro Alcindo Cersi, dono da fazenda São José, em São Pedro do Paraná (94 quilômetros a oeste de Paranavaí). A área foi invadida no dia 4 de setembro por 75 famílias de trabalhadores sem-terra e desocupada no dia 6 deste mês.
A desocupação pacífica da área, transformou-se em pesadelo para o dono da fazenda. O proprietário acusa os sem-terra de terem roubado da fazenda 254 sacas de café beneficiado, inseticida, óleo lubrificante, máquina de soldar, enxadas, aparelhos eletrodomésticos e roupas de cama que estavam na sede da propriedade. Acusam ainda os invasores de roubar dois tratores avaliados em R$ 70 mil e o câmbio e diferencial de um jipe, ano 77, que estava na garagem da fazenda.
Para tirar o diferencial e o câmbio, os sem-terra, segundo a denúncia do fazendeiro, teriam cortado a lateral do jipe na parte interna. Também foram roubados duas rodas e dois pneus do jipe. A Folha esteve no local e verificou o ato de vandalismo.
Em dois meses de ocupação, as famílias mataram 48 cabeças de gado da propriedade. Os próprios sem-terra confirmam o abate dos animais. Matamos porque tínhamos que comer, afirma um dos coordenadores do acampamento. Tudo bem! Eles tinham que se alimentar, mas abater 48 cabeças, é muita coisa não é não?, indaga, indignado, Cersi.
Sobre as demais denúncias, os sem-terra, na maioria das vezes, se calam. Sobre algumas denúncias, retrucam e dizem que são falsas. Em certos momentos, chegam a insinuar que tudo não passou de uma trama do próprio fazendeiro. Eles (proprietário da fazenda e o filho dele) estão conseguindo o que querem fazendo estas denúncias, disse um dos coordenadores dos sem-terra que se identificou para a reportagem da Folha como Luiz Carlos, mas, na verdade, se chama Luiz Clério.
Ao deixarem a fazenda São José, as famílias de trabalhadores sem-terra voltaram para o acampamento improvisado, na fazenda Boa Sorte, cerca de 10 quilômetros da São José. Na semana passada, ao visitar a área, a reportagem conversou com alguns integrantes, mas Luiz Clério, foi o escolhido pelo grupo para dar as declarações. Ele confirmou que as famílias levaram parte do café beneficiado que estava na fazenda.
Na primeira declaração, ele afirmou que cada família pegou uma saca de café no dia da desocupação. Como ele próprio tinha acabado de dizer que apenas 75 famílias participaram da ocupação da São José, ficava implícito que haviam sido furtadas 75 sacas de café. Alguns segundos depois, Luiz Clério alterou a declaração e disse que, além das 75 sacas, outras 13 haviam sido roubadas logo depois da ocupação para ajudar no sustento das famílias.
Ao fazer a correção, Luiz Clério lembrou-se da apreensão de 88 sacas de café, feita no dia 10 pela Polícia Militar de Paranavaí. A carga estava sendo transportada da fazenda Boa Sorte (onde estão os sem-terra) para uma cerealista em São Pedro do Paraná. Quatro pessoas, inclusive o sem-terra Altair Baseggio, foram presas.
Baseggio estava com um cheque do comerciante que havia comprado o café. Lembrando da apreensão, Luiz Clério admitiu que os sem-terra furtaram 88 sacas de café da fazenda. Quanto ao restante da carga, os trabalhadores negaram a autoria do crime. A negativa não convenceu a polícia da região. No dia 11, por exemplo, a PM apreendeu 65 sacas de café que estavam numa cerealista em Marilena (79 quilômetros a noroeste de Paranavaí).
Outras 40 sacas, conforme apurou a PM, foram entregues para uma mercearia, também de Marilena, onde os sem-terra são fregueses. Restam 59 sacas de café. Para o comandante do 8º Batalhão da PM de Paranavaí, coronel Gilberto Kummer, o restante das sacas de café não está mais na região. Os sem-terra não são bobos. Eles já mandaram o café para bem longe, afirmou Kummer.
Os sem-terra que não confirmam o roubo de toda carga de café, também se calam diante a acusação do roubo de dois tratores, de aparelhos eletrodomésticos e do vandalismo praticado no jipe. Estava dormindo quando entraram na fazenda de madrugada e levaram os tratores, afirma um sem-terra que não quis se identificar, mas que a Folha descobriu tratar-se de José Broto, outro coordenador do acampamento na fazenda Boa Sorte. Conforme os sem-terra, o roubo dos tratores não existiu e tudo não passou de uma armação por parte do proprietário da área para desmoralizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Em algumas declarações, os coordenadores do acampamento em Boa Sorte, se contradizem. Luiz Clério por exemplo, chegou a afirmar que as famílias não invadiram a sede da fazenda e que não roubaram nenhum eletrodoméstico. Minutos depois, disse que, mesmo que os sem-terra tivessem roubado os aparelhos o que deveria ser levado em conta eram as dificuldades dos trabalhadores e as circunstâncias. Sobre o roubo do café, José Broto lança uma denúncia contra o dono da fazenda São José. Este café não tem procedência e tenho certeza que é fruto de falcatruas, disse, insinuando uma denúncia de contrabando. (Leia mais sobre a situação dos sem-terra na região de Querência do Norte na edição de amanhã)


