Sem-terra deixam fazenda Borborema
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de abril de 1997
Lucília Okamura 
As 42 famílias de sem-terra desocuparam ontem de manhã a fazenda Borborema, em Tamarana (70 quilômetros de Londrina), e foram para uma propriedade localizada a cerca de um quilômetro de distância. A desocupação, pacífica, fez parte de um acordo entre a coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e a superintendência regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), firmado anteontem.
A saída pacífica das famílias foi a forma encontrada pelo Incra para evitar novos conflitos na área. No último domingo, durante um confronto com os sem-terra, o segurança José Lopes de Oliveira, 36 anos, conhecido como Django, foi morto com um tiro na cabeça. Ele havia sido contratado pelo arrendatário da fazenda, Pedro Ribeiro, para retirar as famílias do local.
Ontem à tarde, as famílias estavam armando suas barracas em uma área na beira da estrada. Bastante desconfiados, evitaram falar com a imprensa e não queriam ser fotografados, temendo vingança pela morte de Django. Sai a nossa foto no jornal e pode aparecer um pistoleiro, justificou um deles.
As famílias dizem estar também em dúvida sobre quanto tempo terão de ficar na nova área. Eles não souberam dizer o nome da propriedade que ocupam e a quem pertence. Para evitar a poeira que vem da estrada, muitos sem-terra estavam cortando o mato nos fundos da propriedade e montando lá suas barracas.
Pedro Bonfim, da coordenação regional do MST, confirma que os sem-terra estão com medo de represália. A saída deles aconteceu para que não haja mais conflitos, mas eles têm medo, revela. Bonfim explica que as famílias ficarão assentadas na área até que o Incra resolva sobre a desapropriação da fazenda Borborema.
Conforme laudo técnico do órgão, a fazenda é improdutiva e, por isso, passível de desapropriação. A superintendente regional do Incra, Maria de Oliveira, irá a Brasília hoje para levar o processo referente à fazenda para o Conselho Diretor do Incra. Este conselho, que se reúne toda terça-feira, decidirá sobre a desapropriação ou não.
Como parte do acordo para desocupação da área, os sem-terra devem voltar à fazenda Borborema na próxima semana para fazer a colheita de milho plantado em quatro alqueires. Um representante do Incra deverá acompanhar os sem-terra.
Ontem, até o início da tarde, ninguém da família de Chaufic Burihan, proprietário da fazenda, havia ido até a fazenda.
O casal Antonio e Maria José de Moraes, que trabalha na fazenda há pouco mais de dois anos, havia ficado fora da área durante quatro dias por causa do conflito. Ficamos na casa da minha mãe, em Tamarana, explica Maria José.
Anteontem, o casal e seus sete filhos resolveram voltar para a fazenda porque o clima estava mais tranquilo. Maria José comenta: Eles (sem-terra) nunca mexeram com a gente e não vai ser agora que vão fazer mal.


